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    Intervenções dos EUA na América Latina é norma, não exceção, diz especialista

    BarthimanBarthimanjaneiro 17, 2026
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    Em dezembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), reafirmou o compromisso de sua gestão com a Doutrina Monroe, que estipulou o lema “América para os americanos’ há pouco mais de 200 anos. Cerca de 1 mês depois, tropas norte-americanas invadiram a Venezuela e destituíram Nicolás Maduro (PSUV, esquerda) do comando do país sul-americano.

    Na prática, a política citada norteia a relação dos EUA com seus vizinhos, atribuindo ao país a liderança no que consideram seu próprio hemisfério. Isso significa uma reafirmação de influência no continente a partir do poder político, econômico e militar norte-americano, cabendo ao país tomar ações para impedir que políticas contrárias ao seu próprio interesse se desenvolvam nas Américas.

    Com o ataque à Venezuela em 3 de janeiro e a deposição de Maduro, os EUA retomam a faceta mais concreta do intervencionismo no continente, avaliam pesquisadores e professores.

    Vicente Gil, professor e vice-diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma ao Poder360 que a política de interferência pode se dar de diferentes formas. “ Existem as intervenções mais explícitas ‘, em que tradicionalmente há o “ desembarque de tropas norte-americanas no território estrangeiro ‘, explica.

    “ E existem aquelas intervenções que são cotidianas da história dos Estados Unidos na América Latina, desde antes da 2ª Guerra Mundial. São aquelas que interferem no jogo político interno de um outro país, mas que não fica tão visível assim o papel dos Estados Unidos porque não tem essa intervenção ostensivamente. Ela pode ser encoberta ou sigilosa. Na verdade, a forma mais comum de intervenção é justamente essa ‘, relata Gil.

    Para o professor, casos de sanções econômicas ou comerciais, como os EUA impõem à Cuba há décadas, ou mesmo o tarifaço aplicado ao Brasil em 2025, constituem também um tipo de interferência. Em razão disso, é difícil precisar o número de intervenções na América Latina ao longo da história. As justificativas dadas são também variadas.

    No contexto da Guerra Fria , muitas das interferências estavam relacionadas a um temor de adesão do continente ao comunismo, com governos latinoamericanos se aproximando de inimigos dos EUA —como a antiga União Soviética. Em outros momentos, já estiveram relacionadas ao direito pressuposto do país de se expandir, no que ficou conhecido como a ideologia do “ Destino Manifesto ‘.

    Para Gil, “ o que aconteceu na Venezuela em 3 de janeiro é o símbolo que marca uma virada ‘ na relação dos norte-americanos com o continente. É o que muitos veículos norte-americanos têm caracterizado como “Doutrina Donroe’, uma adaptação da política criada pelo presidente James Monroe mas agora sob o comando de Donald Trump.

    Para o professor, a preocupação dos EUA com seus vizinhos nunca foi interrompida, mas vinha sendo marcada por uma menor intervenção direta e com presença militar. Gil relembra o uso de drones durante o governo de Barack Obama (Partido Democrata) (2009-2016), para atuar em questões geopolíticas, como no ataque a extremistas.

    O professor explica que isso representou um método de intervenção “ mais indireto e sigiloso ‘, permitindo que as ações fossem realizadas sem a presença física de militares norte-americanos —que envolve toda uma simbologia para além da ação em si.

    Segundo o cientista político especialista em EUA, Carlos Gustavo Poggio, a busca de Trump por influência na América Latina remete à tradição histórica da política externa dos EUA, conhecida como “Big Stick’. O presidente “ enxerga este hemisfério como uma zona de interesse dos EUA, muitas vezes imperialmente. Isso remete à ideia do século 19 de áreas de influência. Ao classificar cartéis como organizações terroristas, por exemplo, ele abre margem para ações militares, como as que vimos recentemente ‘, afirma ao Poder360.

    Historicamente, a relação dos EUA com seu vizinho de fronteira é complexa. Grande parte do que hoje é o território norte-americano já pertenceu ao México, como os Estados de Arizona, Califórnia, Nevada, Novo México, Texas e Utah.

    O governo dos EUA anexou a região depois que colonos norte-americanos passaram a ocupar o Texas, desencadeando na Guerra Mexicano-Americana. Com o fim do conflito, os territórios foram cedidos aos EUA.

    Os EUA intervieram na guerra de independência de Cuba do reinado espanhol. Depois da libertação, em 1898, os norte-americanos ocuparam a ilha até 1902, quando um governo cubano assumiu a liderança do país.

    Depois de realizada a revolução comunista comandada por Fidel Castro e já no contexto da Guerra Fria, os EUA, por meio da CIA (Central Intelligence Agency), treinaram cubanos exilados em Miami para empreender a invasão da Baía dos Porcos . Foi uma tentativa frustrada do governo de John F. Kennedy (1961-1963) de derrubar o regime cubano, em meio à escalada das tensões com a União Soviética.

    Posteriormente, os EUA seguiram com uma política de embargo econômico contra a ilha. Em vigor desde 1962, a medida colaborou para a crise econômica vigente no país caribenho.

    Os EUA intervieram diretamente na Guatemala em 1954 por meio da CIA (Central Intelligence Agency), órgão norte-americano encarregado da análise de segurança nacional mundial e com papel crucial na ação em países latino-americanos durante a Guerra Fria.

    O governo dos EUA apoiou e instrumentalizou um golpe de Estado no país caribenho, derrubando o presidente eleito democraticamente, Jacobo Árbenz. Vicente Gil relata que o resultado do processo de interferência foi “ décadas de guerra civil. Não houve estabilidade nenhuma ‘.

    Durante a década de 1990, o presidente democrata Bill Clinton (1993-2000) emitiu um pedido de desculpas pela ação norte-americana no país. Na época, uma comissão governamental guatemalteca reconheceu os EUA como o maior responsável pela violação de direitos humanos na guerra civil que durou 36 anos e matou mais de 200 mil pessoas.

    Durante a Guerra Fria, os EUA apoiaram golpes de Estado na América do Sul , responsáveis por destituir governos de esquerda e colocar no lugar grupos militares.

    No Brasil, em 1964, por meio da Operação Brother Sam, o governo norte-americano apoiou militares brasileiros para retirar o presidente João Goulart do cargo. A intervenção, inicialmente velada, tornou-se alvo de investigação da historiografia e foi posteriormente confirmada por documentos desclassificados divulgados pelos EUA. Eis a íntegra de um deles, em inglês.

    Posteriormente, em 1973, no Chile, os EUA agiram para retirar o presidente de esquerda Salvador Allende. O secretário de Estado norte-americano na época, Henry Kissinger , justificou a ação: “ Não vejo por que deveríamos ficar parados e deixar um país tornar-se comunista por causa da irresponsabilidade do seu próprio povo ‘.

    Depois disso, o general Augusto Pinochet assumiu o comando do país. Seu governo é considerado um dos mais sangrentos da história da América Latina. A Comissão da Verdade e Reconciliação do Chile, instalada logo depois do fim da ditadura, estimou que ao menos 3.200 pessoas morreram ou desapareceram e pelo menos outras 40.000 foram torturadas pelos militares durante os 17 anos do regime.

    Os EUA deram apoio também ao governo militar instituído depois do golpe perpetrado na Argentina, em 1976, responsável por desencadear uma ditadura que durou até 1983. Nesse período, a administração norte-americana financiou a Escola das Américas , instituto do Departamento de Defesa dos EUA, que treinou oficiais de ditaduras do Cone Sul em técnicas de tortura.

    Durante o governo George H. W. Bush (1989-1992), os EUA enviaram tropas para o Panamá com o objetivo de derrubar Manuel Noriega. Anteriormente próximo dos norte-americanos, inclusive colaborando com as agências de inteligência do país, o presidente panamenho foi investigado por envolvimento com o narcotráfico.

    Noriega foi deposto e levado aos EUA, onde respondeu às acusações perante a justiça norte-americana.

    Depois de meses de tensões entre Donald Trump e o governo de Nicolás Maduro, os EUA realizaram uma operação para retirá-lo do poder e levá-lo aos EUA para responder às acusações relacionadas a narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e uso de armamento pesado.

    A reação internacional à ação foi limitada, mesmo com países como a Colômbia buscando discutir o assunto na ONU (Organização das Nações Unidas), em razão de uma provável infração do direito internacional. Gil avalia que isso se deu porque, como o governo norte-americano já não reconhece a importância de organizações internacionais, a própria influência desses organismos acaba por ser esvaziada.

    Com a deposição do líder venezuelano, a vice Delcy Rodríguez foi empossada presidente interina da Venezuela. Ela adota um tom ambíguo em relação aos EUA. Ao passo que colabora com os norte-americanos e atende a demandas do governo Trump, como a libertação de presos políticos, Rodríguez nega interferência e segue defendendo Maduro, que diz ter sido “ sequestrado ‘.

    Trump já brincou nas redes sociais ser o “ presidente interino da Venezuela ‘ e afirmou repetidamente que a administração do petróleo venezuelano está sob tutela norte-americana “ para fins governamentais e diplomáticos, não estando sujeitos a reivindicações privadas ‘.

    Esta reportagem foi produzida pelo estagiário de jornalismo João Lucas Casanova sob supervisão da editora-assistente Aline Marcolino.

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