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    Destaque

    A causa número 1 da epidemia de obesidade

    BarthimanBarthimanfevereiro 2, 2026
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    Os números da obesidade seguem subindo, sem sinal de trégua. Em 2025, a estimativa era que 2,3 bilhões de adultos no mundo estivessem acima do peso e cerca de 700 milhões com obesidade. No Brasil, a taxa mais que dobrou em menos de duas décadas, saindo de 11,8% da população adulta em 2006 para 24,3% em 2023, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta quarta-feira, 28.

    Por trás dessa escalada, especialistas apontam para uma mudança no padrão alimentar: a troca da comida de verdade por produtos prontos. E, nesse debate, um nome aparece com frequência: o do epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, professor da Universidade de São Paulo (USP) e criador do conceito de “alimentos ultraprocessados”, conceito que engloba salgadinhos, bolachas, refrigerantes, comidas congeladas, e por aí vai.

    Na definição dele, ultraprocessados não são apenas “comida industrializada”. São produtos fabricados a partir de formulações que levam pouco, ou nenhum, alimento inteiro. No lugar, entram ingredientes refinados e uma lista de aditivos usados para dar cor, aroma, textura e aquele “gosto de comida” que faz o cérebro pedir repeteco.

    “São formulações químicas com pouco ou nenhum alimento e muitos aditivos para dar sabor de comida a algo que não é comida”, resume Monteiro. Em outras palavras: não é só sobre calorias. É sobre um tipo de produto desenhado para ser prático, barato, durável e irresistível. Isso, somado a fatores de risco já conhecidos para a obesidade – como predisposição genética, alterações endócrinas e o uso de alguns medicamentos – estaria por trás da escalada da pandemia de obesidade.

    Foi observando o comportamento de compra dos brasileiros que Monteiro e sua equipe começaram a conectar os pontos. Ao longo dos anos, as famílias passaram a cozinhar menos e a depender mais de alimentos prontos. Saiu a lista de compras com ingredientes básicos, entrou o carrinho cheio de pacotes, caixinhas e bebidas adoçadas. Ao mesmo tempo, os indicadores de ganho de peso avançaram.

    Hoje, essa discussão não está mais restrita ao Brasil nem a um único pesquisador. O conceito de ultraprocessados ganhou o mundo e virou tema de uma avalanche de estudos. As pesquisas vêm associando dietas ricas nesses produtos não apenas à obesidade, mas também a um risco maior de doenças como diabetes, problemas cardiovasculares, depressão e até alguns tipos de câncer.

    Obesidade infantil: mais de 7 milhões de jovens brasileiros possuem a condição (Natnan Srisuwan/moment/Getty Images)

    Os números da obesidade seguem subindo, sem sinal de trégua. Em 2025, a estimativa era que 2,3 bilhões de adultos no mundo estivessem acima do peso e cerca de 700 milhões com obesidade. No Brasil, a taxa mais que dobrou em menos de duas décadas, saindo de 11,8% da população adulta em 2006 para 24,3% em 2023, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta quarta-feira, 28.

    Por trás dessa escalada, especialistas apontam para uma mudança no padrão alimentar: a troca da comida de verdade por produtos prontos. E, nesse debate, um nome aparece com frequência: o do epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, professor da Universidade de São Paulo (USP) e criador do conceito de “alimentos ultraprocessados”, conceito que engloba salgadinhos, bolachas, refrigerantes, comidas congeladas, e por aí vai.

    Na definição dele, ultraprocessados não são apenas “comida industrializada”. São produtos fabricados a partir de formulações que levam pouco, ou nenhum, alimento inteiro. No lugar, entram ingredientes refinados e uma lista de aditivos usados para dar cor, aroma, textura e aquele “gosto de comida” que faz o cérebro pedir repeteco.

    “São formulações químicas com pouco ou nenhum alimento e muitos aditivos para dar sabor de comida a algo que não é comida”, resume Monteiro. Em outras palavras: não é só sobre calorias. É sobre um tipo de produto desenhado para ser prático, barato, durável e irresistível. Isso, somado a fatores de risco já conhecidos para a obesidade – como predisposição genética, alterações endócrinas e o uso de alguns medicamentos – estaria por trás da escalada da pandemia de obesidade.

    Foi observando o comportamento de compra dos brasileiros que Monteiro e sua equipe começaram a conectar os pontos. Ao longo dos anos, as famílias passaram a cozinhar menos e a depender mais de alimentos prontos. Saiu a lista de compras com ingredientes básicos, entrou o carrinho cheio de pacotes, caixinhas e bebidas adoçadas. Ao mesmo tempo, os indicadores de ganho de peso avançaram.

    Hoje, essa discussão não está mais restrita ao Brasil nem a um único pesquisador. O conceito de ultraprocessados ganhou o mundo e virou tema de uma avalanche de estudos. As pesquisas vêm associando dietas ricas nesses produtos não apenas à obesidade, mas também a um risco maior de doenças como diabetes, problemas cardiovasculares, depressão e até alguns tipos de câncer.

    Alerta global

    Uma das sinalizações mais fortes de que esse debate ganhou status internacional veio de uma série publicada na revista científica The Lancet, uma das mais prestigiadas do mundo, que reuniu 43 cientistas de vários países – incluindo Monteiro – para avaliar o impacto dos ultraprocessados na saúde. O editorial que acompanha a coletânea, divulgado em dezembro de 2025, diz que “é hora de colocar a saúde acima do lucro”.

    O ponto central defendido pelos autores é que o problema não está apenas em “comer demais” ou exagerar no açúcar e na gordura. A preocupação é com um padrão alimentar inteiro, baseado em ultraprocessados, que vem substituindo dietas tradicionais: aquelas centradas em alimentos in natura ou minimamente processados e no preparo culinário das refeições.

    E isso não é um fenômeno localizado. Segundo os artigos, a participação dos ultraprocessados na alimentação aumentou de forma marcante em diferentes regiões do mundo nas últimas décadas. Em inquéritos nacionais citados pelos autores, a fatia energética desses produtos triplicou na Espanha, passando de 11% para 32% em cerca de três décadas. Na China, subiu de 4% para 10% no mesmo período. Já em México e Brasil, o avanço foi de 10% para 23% ao longo de quatro décadas. Em países como Estados Unidos e Reino Unido, essa participação se mantém acima de 50% há pelo menos duas décadas.

    A coletânea também aponta que esse aumento tende a vir acompanhado de um salto no consumo total de calorias. Uma meta-análise com dados de 13 países, citada na série, estimou que, a cada aumento de 10% na proporção de ultraprocessados na dieta, a ingestão diária total de energia cresce, em média, 34,7 kcal.

    Os autores explicam que isso acontece por causa daquelas características desses produtos, que empurram o consumo para cima: alta densidade energética, textura macia, hiperpalatabilidade (o famoso “difícil parar de comer”) e fórmulas que, muitas vezes, entregam muito açúcar, gordura e sódio, com menos fibras e proteínas. É uma combinação que facilita comer mais e se sentir saciado por menos tempo.

    Formação de coalizões

    Os pesquisadores defendem que os ultraprocessados passem a ser reconhecidos como uma questão global de saúde, impulsionada por interesses comerciais, de forma semelhante ao tabaco.

    “A questão agora é que essas indústrias continuam lucrando, enquanto o resto da economia sai perdendo, com as pessoas adoecendo e morrendo mais cedo”, afirma Monteiro.

    Para enfrentar o problema, o documento sugere a construção de coalizões internacionais, reunindo sociedade civil, especialistas, governos, ONU e mídia, além do uso de políticas públicas integradas, como impostos, restrições de marketing, rotulagem mais clara e compras públicas voltadas para alimentos saudáveis.

    Os cientistas também destacam que qualquer transição para dietas com menor consumo desses produtos precisa ser feita de forma justa, evitando estigmatização e protegendo a segurança alimentar, especialmente para famílias mais vulneráveis.

    Entre as recomendações, estão medidas para reduzir o poder corporativo e redistribuir recursos, ampliar o acesso de famílias de baixa renda a alimentos frescos e revisar incentivos econômicos, como subsídios ligados a commodities usadas como base de ingredientes industriais.

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