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    Estudo investiga como a alimentação pode interferir na longevidade após o câncer

    BarthimanBarthimanfevereiro 6, 2026
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    O que vai ao prato anos após um diagnóstico de câncer pode ter peso importante. Um estudo publicado na Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, revista da Associação Americana para Pesquisa do Câncer (AACR), analisou como o grau de processamento dos alimentos consumidos no dia a dia se relaciona com o risco de morte em sobreviventes de doença ao longo do tempo.

    Para traçar essa investigação, os pesquisadores analisaram o Estudo Moli-sani, que acompanhou 24.325 adultos italianos com 35 anos ou mais durante 15 anos. Dentro desse grupo, os pesquisadores identificaram 802 sobreviventes de câncer, sendo 476 mulheres e 326 homens, que foram recrutados para fornecer informações sobre alimentação por meio de um questionário. A coleta dos dados de dieta ocorreu, em média, 8,4 anos após o diagnóstico.

    Os alimentos foram classificados por meio do sistema NOVA ,desenvolvido pelo epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, que organiza os itens alimentares de acordo com o grau de processamento industrial. Nesse sistema, os ultraprocessados são definidos como formulações industriais prontas para consumo, com pouco ou nenhum alimento “de verdade”, geralmente compostas por misturas de açúcares, gorduras, corantes, aromatizantes e outros aditivos.

    A ingestão desses alimentos foi calculada de duas formas. Uma delas levou em conta o quanto os ultraprocessados pesavam no prato, em relação ao total de tudo o que a pessoa comia e bebia ao longo do dia. A outra considerou quanta energia vinha desses produtos, ou seja, a proporção de calorias fornecidas pelos ultraprocessados na dieta diária.

    O trabalho é assinado por Marialaura Bonaccio, da Unidade de Pesquisa em Epidemiologia e Prevenção do IRCCS Neuromed, em Pozzilli, no sul da Itália. Segundo ela, embora a relação entre dieta e câncer já seja amplamente discutida, a maioria dos estudos com sobreviventes da doença ainda se concentra em nutrientes isolados — gordura, açúcar, fibras, e não no modo como os alimentos são produzidos.

    “Mesmo quando um alimento ultraprocessado tem, em teoria, um perfil calórico e nutricional semelhante ao de um alimento minimamente processado, ele pode ter efeitos muito diferentes no organismo”, explica Bonaccio. Isso porque o processamento industrial envolve aditivos, conservantes, aromatizantes artificiais, emulsificantes e grandes quantidades de açúcar e gorduras que o corpo humano não está bem adaptado para metabolizar.

    Resultados

    Ao longo do acompanhamento, 281 dos 802 sobreviventes de câncer foram a óbito. A análise mostrou que aqueles com o consumo mais alto de alimentos ultraprocessados, considerando o peso total ingerido, apresentaram um risco 48% maior de morte por todas as causas e 57% maior de morte por câncer em comparação com o grupo de menor consumo.

    Quando o cálculo foi feito com base na proporção de calorias vinda desses alimentos, a associação permaneceu significativa para mortalidade por câncer, mas não para outras causas. Segundo Bonaccio, essa diferença tem explicação técnica.

    “Alguns alimentos ocupam muito volume, mas têm poucas calorias, enquanto outros concentram muita energia em pequenas porções. Por isso, os resultados podem variar conforme a forma de medir o consumo”, diz.

    Ainda assim, um dado chamou a atenção. Mesmo quando os pesquisadores levaram em conta se a alimentação dessas pessoas era, no geral, considerada saudável, com maior consumo de frutas, verduras, legumes e grãos, a relação entre alto consumo de ultraprocessados e maior mortalidade continuou aparecendo.

    Para os autores, isso indica que o problema não está apenas no equilíbrio de nutrientes da dieta, mas no próprio processo industrial ao qual esses alimentos são submetidos, com o uso de aditivos e técnicas que podem ter efeitos negativos para a saúde.

    Inflamação como peça do quebra-cabeça

    Para tentar entender por que os alimentos ultraprocessados estariam ligados a um maior risco de morte, os pesquisadores olharam para sinais do funcionamento do organismo ao longo do tempo. Entre eles, indicadores relacionados à inflamação no corpo, ao metabolismo e à saúde do coração e dos vasos sanguíneos.

    Quando esses fatores foram levados em conta, especialmente os sinais de inflamação e a frequência cardíaca em repouso, que costuma refletir o estresse do organismo, a relação entre o alto consumo de ultraprocessados e o risco de morte diminuiu em cerca de um terço.

    “Isso sugere que a inflamação crônica e a sobrecarga do sistema cardiovascular ajudam a explicar parte dessa associação”, afirma Bonaccio. “E ajudam a entender como o próprio processamento industrial dos alimentos pode contribuir para piores desfechos a longo prazo entre sobreviventes de câncer.”

    Os pesquisadores também tentaram identificar se algum tipo específico de ultraprocessado seria mais prejudicial do que outro. Foram analisados grupos como bebidas adoçadas, carnes processadas, doces, salgadinhos, molhos prontos e alimentos ricos em amido. Alguns deles apareceram associados a maior mortalidade, enquanto outros não mostraram um padrão consistente.

    Ainda assim, Bonaccio acredita que olhar para esses alimentos de forma isolada pode levar a conclusões equivocadas. “Os ultraprocessados funcionam como um padrão alimentar”, explica. “A principal mensagem é que o consumo total desses produtos importa muito mais do que qualquer item específico.”

    O que o estudo não responde

    Apesar dos resultados consistentes, o estudo tem limitações importantes, algo reconhecido pelos próprios pesquisadores.

    O principal deles é o fato de se tratar de um estudo observacional. Ou seja, os pesquisadores acompanharam as pessoas ao longo do tempo, mas não interferiram na alimentação nem controlaram o que cada uma comia. Por isso, não é possível afirmar que os alimentos ultraprocessados causam diretamente o aumento da mortalidade, apenas que existe uma associação entre maior consumo desses produtos e piores desfechos.

    Outro ponto é que as informações sobre alimentação foram relatadas pelos próprios participantes, o que pode gerar imprecisões. Além disso, os hábitos alimentares dessas pessoas podem ter mudado ao longo dos anos, algo difícil de capturar em estudos de longo prazo.

    Há ainda uma questão de tempo. A dieta foi avaliada, em média, mais de oito anos após o diagnóstico de câncer. Isso significa que o estudo analisou apenas quem já havia sobrevivido por um período relativamente longo, o que pode influenciar os resultados.

    “Mais pesquisas são necessárias para identificar os mecanismos específicos subjacentes a essa relação e para explorar possíveis intervenções dietéticas para melhorar a sobrevida a longo prazo”, escreveram os autores.

    Estudo reforça orientações

    Apesar das limitações, Virgílio Souza, vice-líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo, aponta que os achados reforçam mensagens que já fazem parte do acompanhamento oncológico, mas agora sustentadas por dados de longo prazo.

    “É um estudo importante, com mais de 800 pacientes e um seguimento médio de quase 15 anos, o que dá robustez aos resultados”, avalia. Na prática, isso reforça a orientação para pacientes que já passaram pelo tratamento inicial e seguem em acompanhamento: reduzir alimentos ultraprocessados e priorizar alimentos frescos ou minimamente processados.

    Além disso, Souza lembra que a alimentação não atua sozinha. Estudos recentes com pacientes com câncer colorretal, por exemplo, mostram que a prática regular de atividade física após o tratamento adjuvante está associada à redução da mortalidade e do risco de recorrência da doença.

    “Isso fala diretamente de qualidade de vida. O paciente que passou por um tratamento oncológico precisa ser olhado para além do controle da doença. Manter um bom padrão alimentar e a prática de atividade física são pilares fundamentais nesse cuidado”, diz.

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