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Em 1998, em um lugar conhecido como Vila do Rio Nipah, na Malásia, criadores de porcos ficaram preocupados ao perceber que seus animais estavam adoecendo. Alguns dias depois, habitantes da região começaram a cair de cama. Autoridades sanitárias foram então convocadas a investigar os sintomas de uma moléstia desconhecida e identificaram um novo vírus por trás dos ataques a suínos e humanos.
Extremamente letal, foi batizado de Nipah, em referência à origem geográfica. Correndo contra o tempo, os médicos que atenderam as vítimas do primeiro surto detectaram que o patógeno causava encefalite grave, uma inflamação no cérebro que pode acarretar confusão mental, perda de consciência, convulsão e até a morte. Foram 265 vítimas, ao menos 100 delas fatais.
Desde então, o Sudeste Asiático enfrenta episódios cíclicos da doença, que, pelos cálculos dos cientistas, mata entre quatro e sete indivíduos em cada dez infectados. Nesse meio-tempo também se descobriu o hospedeiro do vírus na natureza: morcegos que se alimentam de frutas. Parece um filme a que já assistimos — e este é baseado em fatos reais. Daí o alarme soado pela detecção de três novos casos de Nipah na Ásia nas últimas semanas.
Primeiro, dois profissionais de saúde testaram positivo para o microrganismo em Calcutá, na Índia — um deles se recupera, o outro seguia em estado grave. O governo local fez exames em quase 200 pessoas que poderiam ter tido contato com as vítimas, e todas apresentaram resultado negativo. Declarou, assim, que o surto estava sob controle, ainda que aeroportos na Ásia já tivessem acionado seus protocolos de contenção de epidemias.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) se posicionou, afirmando que a situação está sendo bem monitorada e que o risco de uma emergência global é baixo. Mas nem houve tempo para o medo arrefecer. Outro caso, que resultou em morte, foi notificado em Bangladesh. Ou seja, as medidas de vigilância seguem decisivas. Afinal, a mesmíssima OMS já alçou o Nipah à sua lista de patógenos preocupantes e de potencial pandêmico.
O vírus da vez é normalmente transmitido pelo contato com urina, fezes ou saliva de um gênero de morcego típico da Ásia (Pteropus), ou por alimentos contaminados pelo animal. Isso não é tão incomum em países como Índia e Bangladesh porque a população tem o costume de consumir a seiva fresca da tamareira e seus frutos, expostos aos morcegos à noite.
Foi o que aconteceu com a mulher que perdeu a vida em Bangladesh, como se descobriu. Mas, com o desmatamento e o crescimento urbano, os humanos estão invadindo o hábitat dos bichos e, assim, ampliando o risco de pegar os vírus neles alojados — algo que também acontece quando o micróbio tem hospedeiros intermediários, caso do porco.
O ponto é que, para a sorte da nossa espécie, a transmissão entre pessoas é rara, envolve contato próximo com fluidos e, em geral, se restringe a uma cadeia curta de vítimas. Nesses casos, porém, excesso de cautela nunca é demais. Já foram notificados surtos em que o Nipah compromete o sistema respiratório, podendo se espraiar mais efetivamente.
“Existe a percepção de que vírus muito letais não se espalham com facilidade, o que em parte é verdade, mas não regra universal”, esclarece a infectologista Carolina Lázari, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial.
Os desdobramentos da presença de um vírus como o Nipah dependem da transmissibilidade, conceito-chave que representa a capacidade e os meios de o patógeno circular e a abundância de vetores ou reservatórios no local. E, aí, faz sentido traçar um paralelo com o coronavírus da covid-19: um microrganismo que, tudo leva a crer, veio de morcegos, por meio de mutações genéticas, aprendeu a se propagar entre humanos e é exemplo vivo e trágico de como uma zoonose se transforma em pandemia.
Se, de um lado, a taxa de letalidade do SARS-CoV-2 beira 1% dos infectados, por outro ele é transmitido por gotículas no ar, podendo afetar uma parcela gigantesca da população (veja mais exemplos no quadro). “Vírus como o da covid-19 e o da gripe são menos letais, mas se disseminam com eficiência, combinação que resulta em um grande número absoluto de mortes”, afirma Lázari. “Na prática, Nipah e ebola podem colapsar sistemas de saúde locais e gerar pânico, enquanto vírus amplamente disseminados causam impacto global silencioso.”
A perspectiva de uma pandemia pelo vírus que emergiu agora na Índia e em Bangladesh é remota (inclusive porque o tipo de morcego que o hospeda não vive em continentes como as Américas), mas o risco de novos estragos na região, nem tanto. E nunca é demais lembrar um mantra dos especialistas: vírus sofrem inúmeras mutações na natureza, podendo se metamorfosear e ganhar características perigosas. Praticamente todos eles replicam esse roteiro inscrito em seu código genético — uns mais, outros menos.
E ninguém quer que algo como o Nipah ganhe asas. “Falamos de um vírus para o qual não existe vacina e os antivirais ainda são experimentais. O tratamento depende de uma terapia de suporte, não raro em UTI”, diz o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da USP. O exemplo asiático de agir e comunicar as autoridades sem demora é a lição viva da crise da covid: sim, o radar viral precisa seguir sempre ligado.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982





