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    Medicina já debate se ciúme pode ser doença de verdade

    BarthimanBarthimanfevereiro 15, 2026
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    A linguagem cotidiana já diz quase tudo quando se fala que a pessoa tem um ciúme doentio: a escalada obsessiva dessa paixão escura, tão comum, tem mesmo um quê de doença. Daí a aceitar que passe a fazer parte do rol oficial de distúrbios mentais, bem, é outra história. Dá o que pensar a pergunta lançada por dois psicólogos da Suécia em artigo de opinião no Jama Psychiatry, um dos periódicos da associação médica dos EUA: ‘O ciúme obsessivo tem lugar na psiquiatria?’ David Mataix-Cols e Johan Åhlén, do Instituto Karolinska, propõem que sim, seria útil contar com uma nova categoria de diagnóstico, algo como transtorno de ciúme obsessivo, ou mórbido.

    Primeira coisa que vem à cabeça: caso seja criado um número CID para essa perturbação, poderia ela vir a ser empregada por advogados de defesa como atenuante em casos de feminicídio? Matei porque estava doidão, literalmente louco de ciúme, e aqui está o médico para testemunhar que não estou inventando. Seriam os sucedâneos médicos da violenta emoção, da perda momentânea de razão e da legítima defesa da honra que o direito tem banido da argumentação legal, sob pressão da opinião pública enojada com a covardia machista. Nada como um laudo para tirar o próprio da reta, a consagrada saidinha Bolsonaro. Mulheres, claro, também podem manifestar ciúme doentio. Mas parece óbvio que são os homens, na maioria dos casos, os que se atribuem a prerrogativa de recorrer a agressões e violência letal.

    Estão aí as estatísticas para provar. Verdade que, ao pesar prós e contras do novo diagnóstico, Mataix-Cols e Åhlén sequer cogitaram tal possibilidade. Não vivem no Brasil. Limitam-se a discutir se teria cabimento patologizar comportamento tão comum, para não dizer universal. O busílis, argumentam, está em fixar critérios objetivos para estabelecer quando essa paixão se torna excessiva, intrusiva, persistente e incontrolável, dando margem a comportamentos compulsivos de vigilância, confrontação ou agressão. Com parâmetros para identificar os casos verdadeiramente patológicos, prevenção e tratamento poderiam ser mais eficazes. Para isso, defendem, é preciso fazer mais pesquisas. Estudo com um milhar de suecos ciumentos, que teve Åhlén entre os autores, indicou que a obsessão prejudica trabalho, lazer e relacionamentos, estando associada com abuso de álcool.

    Por outro lado, histórico de ciúme em relacionamentos anteriores parece tornar a pessoa mais propensa a buscar assistência psicológica. Talvez esteja aí a chave da responsabilização moral em caso de violência. Qualquer indivíduo que não esteja imbuído da convicção de superioridade pessoal ou de um sentimento de propriedade sobre o outro, em geral alicerçados em noções emboloradas de gêneros masculino e feminino, saberá reconhecer que passou do limite e precisa de tratamento para não recorrer às vias de fato. Essa é a doença da atualidade: uma tendência a se fazer de vítima das próprias pulsões ou incapacidades e a brandi-las como álibis para o desempenho antissocial. O corolário disso, na medicina, vem com a proliferação de diagnósticos que estilhaçam numa miríade de transtornos o caroço duro da infelicidade contemporânea.

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