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    Home»Destaque»Nova cepa do vírus da Mpox recombinante preocupa OMS
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    Nova cepa do vírus da Mpox recombinante preocupa OMS

    BarthimanBarthimanmarço 17, 2026
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    Recentemente, em fevereiro de 2026, dois achados simultâneos reposicionaram o debate sobre a mpox, doença infecciosa viral causada por um vírus da mesma família da varíola humana. A OMS (Organização Mundial da Saúde) relatou a detecção de um vírus recombinante inédito que os testes laboratoriais convencionais não conseguiram identificar corretamente. A nova cepa é formada pela fusão de elementos de duas linhagens genéticas já conhecidas do vírus (clados Ib e IIb), uma ligada ao surto global de 2022 e outra a um surto mais recente em países africanos.

    No final do mês em que a nova cepa foi identificada, o resultado de um grande estudo com o medicamento tecovirimat ampliou a preocupação. Principal antiviral usado contra a varíola e outros vírus do gênero Orthopoxvirus, ao qual também pertence o vírus da mpox, o medicamento vinha sendo empregado de forma empírica no tratamento da doença, sobretudo em casos graves ou em pacientes com maior risco de complicações.

    Publicado no New England Journal of Medicine, o ensaio clínico STOMP mostrou, porém, que o tecovirimat não reduziu o tempo de resolução das lesões, não aliviou a dor nem acelerou a eliminação do vírus. O resultado enfraquece uma das principais apostas terapêuticas contra a doença justamente num momento em que o cenário da mpox se torna mais incerto.

    O estudo envolveu 344 adultos imunocompetentes com mpox confirmada do clado 2 —em sua maioria com doença leve a moderada— foram sorteados para receber tecovirimat oral ou placebo por 14 dias, em um estudo randomizado e duplo-cego, isto é, com distribuição aleatória entre os grupos e sem que pacientes ou pesquisadores soubessem quem estava recebendo o antiviral ou o placebo.

    A comparação não mostrou evidência de benefício clínico do antiviral em relação ao placebo: a resolução clínica (com cicatrização das lesões e a melhora dos sintomas) ocorreu em 83% dos pacientes tratados, percentual praticamente idêntico ao do grupo placebo, com 84%. A diferença média na intensidade da dor foi de apenas 0,1 ponto em uma escala de 0 a 10, e a eliminação do vírus ocorreu em ritmo semelhante nos dois grupos.

    O achado ganha ainda mais força quando analisado em conjunto com o estudo PALM007, realizado na República Democrática do Congo, que chegou à mesma conclusão para o clado 1. Juntos, os dois ensaios enfraquecem a justificativa para o uso rotineiro do medicamento em adultos. O ponto mais delicado é que imunocomprometidos, gestantes e crianças —grupos de maior risco— não foram adequadamente contemplados nesses estudos. A principal lacuna terapêutica, portanto, continua aberta justamente para quem mais pode precisar de tratamento.

    A OMS avalia que essa cepa provavelmente está mais disseminada do que os registros atuais sugerem. Isso porque os dois casos confirmados até agora foram detectados no Reino Unido e na Índia, mas ambos envolvem histórico de viagem internacional —um a um país da Ásia-Pacífico e outro a um país da Península Arábica, não identificados publicamente. Em outras palavras, a circulação do recombinante já envolve ao menos quatro países, em três regiões da OMS, ainda que nem todos tenham sido nomeados.

    A nova cepa recombinante preocupa por uma razão prática: nos dois casos, no Reino Unido e na Índia, os testes convencionais de PCR usados para diferenciação de clados não conseguiram caracterizar corretamente o novo vírus. Apenas o sequenciamento genômico completo mostrou que não se tratava de um clado (linhagem genética) já descrito, mas de um vírus recombinante, com elementos genéticos de ambos.

    A distinção entre os clados (linhagens genéticas) ajuda a dimensionar por que a nova cepa da mpox merece mais atenção. O clado IIb, associado ao surto global de 2022, apresentou letalidade inferior a 0,1% em países de alta renda. O clado Ib, por sua vez, predominante na África Central, tem sido relacionado a quadros mais graves, com letalidade estimada entre 3% e 5% nos casos suspeitos e taxas que podem chegar a 11% entre crianças e pessoas imunocomprometidas. Não se trata de uma diferença marginal.

    Entre janeiro de 2024 e maio de 2025, 26 países africanos notificaram mais de 139 mil casos suspeitos e cerca de 1.788 mortes. No Brasil, não houve óbitos registrados em 2024 e 2025, mas a confirmação do clado Ib em São Paulo, em março de 2025, mudou a natureza do risco: o país deixou de lidar apenas com a variante ligada ao surto anterior e passou a conviver com a possibilidade de circulação de uma forma associada a desfechos mais graves, segundo o informe semanal do Ministério da Saúde.

    O que precisa acontecer agora é relativamente claro. A vigilância precisa incorporar o sequenciamento genômico de forma mais sistemática, porque o PCR convencional não identifica cepas recombinantes. Na assistência, os protocolos clínicos precisam ser revistos à luz das evidências mais recentes, já que o tecovirimat não se sustenta como uso rotineiro em pacientes imunocompetentes, ao mesmo tempo que os grupos mais vulneráveis seguem necessitando de alternativas terapêuticas e de acompanhamento mais cuidadoso. E, do ponto de vista da prevenção, a vacinação dos grupos prioritários não deveria esperar um novo surto para ganhar escala: a janela para agir é agora.

    A principal forma de prevenção disponível hoje é a vacinação. No Brasil, o imunizante ofertado pelo SUS para grupos prioritários é a Jynneos (MVA-BN), imunizante de terceira geração aprovada para mpox, que mostrou eficácia estimada entre 70% e 85% na prevenção de casos sintomáticos durante o surto de 2022, com benefício adicional quando aplicada até 96 horas após uma exposição de risco. A oferta tem sido direcionada a grupos com maior vulnerabilidade ou risco de exposição, como homens que fazem sexo com homens com múltiplos parceiros, profissionais do sexo, pessoas vivendo com HIV e trabalhadores da saúde.

    Outra vacina com proteção cruzada contra a mpox é a ACAM2000, derivada da imunização contra a varíola. Ela não integra a estratégia adotada no SUS e tem uso mais restrito, porque está associada a mais efeitos adversos e é contraindicada para pessoas imunocomprometidas. No horizonte, uma vacina de mRNA desenvolvida pela Moderna apresentou resultados promissores em modelos animais.

    Além da vacinação, seguem valendo medidas básicas de prevenção: evitar contato direto com lesões cutâneas ou mucosas de pessoas com suspeita de mpox e buscar atendimento diante do surgimento de lesões na pele, sobretudo se vierem acompanhadas de febre e aumento dos gânglios linfáticos após uma exposição de risco. Em casos graves, com manifestações extensas ou em pacientes com imunossupressão avançada, as orientações clínicas provisórias dos CDC ajudam a balizar a condução. Estudos sobre mpox em pessoas com HIV avançado mostram também por que o grupo exige atenção especial.

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