A dor pélvica crônica é, talvez, uma das expressões mais evidentes de como a medicina ainda falha quando o tema é saúde feminina. Não por falta de conhecimento, mas por um histórico de subdiagnóstico, invisibilidade clínica e, sobretudo, atraso na incorporação de abordagens mais sofisticadas para o tratamento da dor.
Definida como a dor que persiste por mais de seis meses além do período esperado de cicatrização, essa condição frequentemente ultrapassa o campo ginecológico tradicional. Em muitos casos, o problema já não está no órgão — mas em uma complexa rede do sistema nervoso envolvida na modulação da dor —. É justamente nesse ponto que se inicia um dos maiores equívocos na condução dessas pacientes.
Durante décadas, mulheres com dor pélvica persistente foram submetidas a sucessivas tentativas terapêuticas — medicamentos, fisioterapia, novas cirurgias — sem que se considerasse, de forma estruturada, o componente neuropático da dor. A consequência é um ciclo de sofrimento prolongado, com impacto direto na qualidade de vida, na saúde mental, na produtividade e nas relações sociais e familiares.
Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. A dor pélvica crônica representa cerca de 10% das consultas ginecológicas e pode atingir até 25% das mulheres. Em paralelo, o próprio Ministério da Saúde aponta que a dor crônica afeta até 40% da população adulta brasileira, sendo mais prevalente entre mulheres, um indicativo claro de que estamos diante de um problema de saúde pública ainda subestimado.
É nesse contexto que a neuromodulação do gânglio da raiz dorsal (DRG) emerge como uma mudança de paradigma. Diferentemente das abordagens convencionais, que focam predominantemente na origem periférica da dor, a neuromodulação atua diretamente na forma como o estímulo doloroso é transmitido pelo sistema nervoso.
Trata-se de uma tecnologia minimamente invasiva, baseada na implantação de um dispositivo capaz de emitir estímulos elétricos de baixa intensidade, modulando os sinais dolorosos antes que sejam interpretados pelo cérebro.
É uma tecnologia já validada internacionalmente, com sistemas aprovados por órgãos regulatórios internacionais de alto rigor, reforçando a segurança e a consistência dessa abordagem em cenários clínicos bem indicados.
Na prática, estudos demonstram reduções significativas da dor — em alguns cenários superiores a 80% — associadas à melhora consistente em escalas específicas de avaliação clínica. Dados de estudos multicêntricos também apontam alívio sustentado da dor em parcela significativa dos pacientes ao longo de 12 meses, reforçando o potencial da neuromodulação como estratégia terapêutica em casos selecionados.
Esse cenário ganha ainda mais relevância quando se considera que uma proporção expressiva de mulheres pode evoluir com dor crônica após intervenções ginecológicas, mesmo quando realizadas com técnica adequada — evidenciando o papel do componente neuropático e a necessidade de abordagens mais direcionadas ao sistema nervoso —.
A indicação desse tipo de tratamento segue critérios rigorosos descritos na literatura internacional e por sociedades científicas como a International Association for the Study of Pain e a European Association of Urology, incluindo falha dos tratamentos convencionais, presença de componente neuropático e impacto significativo na qualidade de vida. Ainda é uma área em evolução, que demanda integração entre especialidades e produção científica contínua.
Condições como dor pós-operatória persistente, dor perineal, vulvodínia, neuralgias e síndromes neuropáticas do assoalho pélvico estão entre aquelas que mais podem se beneficiar dessa abordagem.
Ainda assim, há um ponto crítico a ser enfrentado: o acesso. Apesar do reconhecimento internacional e dos resultados consistentes, a neuromodulação ainda não está amplamente disponível na rede pública brasileira. Isso cria uma lacuna preocupante entre o que a ciência já é capaz de oferecer e o que, de fato, chega às pacientes.
Recentemente, durante o 17º Congresso Brasileiro de Estereotaxia e Neurocirurgia Funcional, foi realizado um treinamento multidisciplinar em neuromodulação avançada, um reflexo claro de que a medicina caminha, cada vez mais, para uma abordagem integrada da dor. Neurocirurgiões, ginecologistas, anestesiologistas e especialistas em dor trabalhando de forma conjunta deixam de ser exceção e passam a ser necessidade.
Essa integração é, aliás, um dos pilares para o futuro do tratamento da dor pélvica crônica. Não se trata apenas de tecnologia, mas de mudança de mentalidade.
É preciso reconhecer que dor persistente não é normal e não deve ser naturalizada. A paciente precisa ser acolhida de forma integral, incluindo atenção às dimensões emocionais e de saúde mental. E, sobretudo, não pode continuar sendo submetida a estratégias terapêuticas já esgotadas diante da complexidade do quadro. A perspectiva atual é o tratamento multimodal, individualizado e baseado em evidências.
A boa notícia é que já não estamos mais no mesmo ponto de partida. A ciência avançou. A tecnologia existe. O conhecimento se expandiu e, com ele, a possibilidade de um olhar mais amplo e resolutivo. O desafio, agora, é garantir que essa evolução chegue, de fato, às mulheres que ainda sofrem em silêncio.
Veja *Samantha Condé Rocha Rangel é ginecologista e uroginecologista, doutora pela Unicamp e atual presidente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro





