A possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade volta a colocar a agricultura brasileira em estado de atenção. As projeções mais recentes da Administração Nacional para Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) apontam 82% de probabilidade de o fenômeno se estabelecer até julho deste ano e 96% de chance de permanecer ativo entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Caso as previsões se confirmem, o cenário climático poderá afetar o desenvolvimento das principais culturas do país de formas distintas. No Cerrado, a expectativa é de chuvas irregulares e possíveis atrasos na semeadura, situação que pode comprometer a implantação das lavouras e reduzir a janela para o milho safrinha. No Sul, a previsão é de precipitações mais frequentes e volumosas, aumentando a umidade nas áreas de produção.
Mestre em Agronomia Mário Drehmer: “A irregularidade no período de semeadura resulta em lavouras com fases de desenvolvimento distintas, há um aumento no período de exposição às pragas e doenças” – Foto: Divulgação
Além dos impactos sobre o calendário agrícola, essas condições tendem a elevar a pressão de doenças, exigindo mudanças nas estratégias de manejo fitossanitário.
Segundo o mestre em Agronomia Mário Drehmer, a irregularidade das chuvas pode provocar desuniformidade no desenvolvimento das lavouras, prolongando o período de exposição das plantas aos patógenos. “A irregularidade no período de semeadura resulta em lavouras com fases de desenvolvimento distintas, há um aumento no período de exposição às pragas e doenças. As áreas mais tardias geralmente são as que sofrem maior pressão”, afirma.
Soja exige atenção desde o início do ciclo Na soja, a combinação de temperaturas elevadas com alta umidade cria um ambiente favorável para doenças como septoriose, cercosporiose e ferrugem asiática.
Segundo Drehmer, algumas enfermidades que tradicionalmente preocupavam apenas no fim do ciclo passaram a exigir monitoramento logo nas primeiras fases da cultura. “A septoriose e a cercóspora precisam ser tratadas como problemas de início de ciclo. Hoje, elas podem se estabelecer ainda no período vegetativo, provocando desfolha nas partes inferiores da planta e reduzindo a produtividade antes mesmo que o produtor perceba”, explica.
Milho e trigo também entram no radar No milho, o aumento da umidade amplia o risco de ocorrência do complexo de doenças foliares, formado por patógenos como cercóspora, diplodia, mancha de phaeosphaeria, helmintosporiose e ferrugem.
Para o especialista, o alto potencial produtivo dos híbridos modernos exige atenção redobrada ao manejo preventivo. “Os híbridos atuais apresentam alto potencial produtivo, mas, muitas vezes, possuem menor tolerância às doenças. Por isso, é fundamental trabalhar com fungicidas de amplo espectro de forma preventiva, ainda nos estádios vegetativos”, ressalta.
No trigo, a principal preocupação recai sobre a giberela, doença favorecida por ambientes úmidos e que, além de reduzir o rendimento das lavouras, compromete a qualidade dos grãos devido à produção da micotoxina DON. Mancha-amarela, septoriose e ferrugem também tendem a ganhar importância em períodos de maior umidade.
Excesso de chuva também dificulta o controle Os efeitos do clima não se limitam ao aumento da pressão de doenças. O excesso de chuva pode comprometer a operação das máquinas nas propriedades justamente nos momentos em que o controle fitossanitário é mais necessário. “O molhamento foliar favorece a germinação dos esporos e as chuvas ajudam na dispersão dos patógenos, mas o excesso de água também pode impedir a entrada de máquinas na lavoura. Isso reduz as janelas de aplicação de fungicidas e aumenta o risco de perder o momento ideal de controle”, enfatiza.
Manejo deve considerar as condições de cada região Drehmer observa que o comportamento das doenças resulta da interação entre o hospedeiro, o patógeno e as condições ambientais, fatores que tendem a variar de uma região para outra e de uma safra para outra. “A ocorrência das doenças é resultado da interação entre três fatores: hospedeiro, ambiente e patógeno.
Hoje, contamos com cultivares altamente produtivas e precoces, mas que, muitas vezes, apresentam maior sensibilidade a determinadas doenças. Ao mesmo tempo, as variações climáticas afetam cada região de forma distinta e podem criar condições favoráveis ao desenvolvimento de patógenos presentes no solo, na palhada e em áreas vizinhas. Com tantas variáveis em jogo, não existe mais espaço para receitas prontas. Cada região, cada safra e cada condição de cultivo exigem estratégias de manejo adaptadas à sua realidade”, explica.
Na avaliação do agrônomo, diante de um cenário de maior variabilidade climática, o planejamento antecipado, o monitoramento constante das lavouras e a adoção de estratégias preventivas ganham importância para reduzir perdas e preservar o potencial produtivo das culturas.




