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    Home»Destaque»Boneca Natasha: quando a violência se torna entretenimento
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    Boneca Natasha: quando a violência se torna entretenimento

    BarthimanBarthimanjulho 29, 2026
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    A boneca Natasha nasceu com uma proposta simples: ser um brinquedo sensorial. Feita de um material maleável, foi criada para ser apertada, esticada e amassada como forma de aliviar a tensão. Nada muito diferente de outros objetos usados para reduzir ansiedade.

    Nas redes sociais, porém, ela ganhou outro papel.

    Milhões de pessoas passaram a assistir e a compartilhar vídeos em que a boneca é arremessada, esmagada, queimada ou submetida às mais diversas formas de agressão. Quase sempre com música, humor e comentários divertidos. O que deveria causar desconforto virou entretenimento.

    E talvez essa seja a parte mais preocupante da história.

    O problema nunca foi a boneca em si, mas sim a facilidade com que a violência pode ser transformada em espetáculo quando existe uma audiência disposta a rir e um algoritmo disposto a premiar tudo o que prende a atenção por alguns segundos a mais.

    Isso não significa que uma criança que assiste a esses vídeos se tornará violenta. A ciência não sustenta uma relação tão simplista.

    O desenvolvimento infantil é resultado de muitos fatores: vínculos afetivos, ambiente familiar, escola, experiências de vida e características individuais. Mas também sabemos, há décadas, que crianças aprendem observando.

    O psicólogo canadense Albert Bandura demonstrou que comportamentos vistos repetidamente, sobretudo quando parecem recompensados, passam a integrar o repertório de quem ainda está aprendendo como o mundo funciona. É justamente aí que mora a preocupação.

    Quando a violência aparece misturada ao humor, ela deixa de ser percebida apenas como violência. Vira brincadeira, meme, conteúdo compartilhável. Aos poucos, aquilo que antes provocava estranhamento perde força. Esse fenômeno, conhecido como dessensibilização, não elimina a empatia, mas pode reduzir o impacto emocional diante do sofrimento. E isso merece nossa atenção.

    As redes sociais potencializam esse processo. Seus algoritmos não distinguem o que é saudável do que é prejudicial. Eles identificam aquilo que gera mais tempo de tela, mais comentários, mais compartilhamentos. Na prática, o choque costuma ser um excelente combustível para o engajamento.

    Diante disso, muitos pais perguntam se o melhor caminho é simplesmente proibir esse tipo de conteúdo. Nem sempre. Crianças e adolescentes precisam, antes de tudo, aprender a interpretar criticamente aquilo que consomem.

    Perguntar “o que você achou engraçado nesse vídeo?” pode ser muito mais eficaz do que apenas dizer “não assista”. A conversa abre espaço para refletir sobre empatia, consequências e responsabilidade, habilidades que nenhum filtro de tela é capaz de ensinar.

    A tendência da Boneca Natasha vai passar. Outra ocupará seu lugar. O desafio, porém, continuará sendo o mesmo: educar uma geração que cresce em um ambiente onde a atenção vale mais do que a reflexão.

    Não é o objeto antiestresse do momento que deveria nos assustar. É o fato de estarmos, pouco a pouco, aprendendo a achar graça da violência.

    Credito. Veja * Jaqueline Bifano é médica psiquiatra e psicoterapeuta e especialista em psiquiatria da infância e da adolescência pela UFMG

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