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    Medicina conhece menos o corpo feminino do que deveria, diz ginecologista

    BarthimanBarthimanagosto 13, 2026
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    A medicina ainda conhece menos o corpo feminino do que deveria, segundo a ginecologista e pesquisadora Stephani Caser. Para ela, a sub-representação histórica das mulheres em pesquisas clínicas criou lacunas no diagnóstico e no tratamento que persistem até hoje, apesar de alguns avanços.

    Mestranda em ginecologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e cofundadora da See Me, empresa brasileira voltada à saúde íntima feminina, Caser afirma que a própria trajetória da pesquisa científica ajuda a explicar por que problemas que afetam mulheres ainda são menos compreendidos.

    Durante décadas, homens foram usados como referência em pesquisas porque o ciclo menstrual, as oscilações hormonais e a possibilidade de gravidez eram vistos como fatores capazes de aumentar a variabilidade dos resultados e os custos dos estudos.

    Para Caser, porém, essas diferenças deveriam ser justamente objeto de investigação. O corpo feminino não é apenas um corpo masculino com diferenças anatômicas: sintomas podem se manifestar de forma distinta, assim como a resposta a medicamentos e tratamentos.

    Um exemplo é o infarto. Em mulheres, o quadro pode e apresentar sintomas diferentes da dor no peito mais conhecida, o que pode dificultar o reconhecimento.

    Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia publicado em 2025 afirma que mulheres continuam sub-representadas em ensaios clínicos de doenças cardiovasculares e cardiometabólicas, e parte das recomendações é baseada em evidências indiretas ou extrapoladas de estudos com maioria masculina.

    À Folha, Caser cita como um marco nessa história uma orientação adotada nos Estados Unidos. Em 1977, o FDA (Food and Drug Administration) recomendou excluir mulheres em idade fértil das fases iniciais de estudos clínicos de medicamentos, em uma tentativa de proteger possíveis fetos de efeitos ainda desconhecidos.

    A medida contribuiu para manter mulheres fora das primeiras etapas do desenvolvimento de medicamentos. Em 1993, o órgão revogou a orientação e publicou uma diretriz para avaliar diferenças entre homens e mulheres na resposta aos medicamentos.

    A mudança, porém, não eliminou as lacunas. O problema também estava na pesquisa pré-clínica, etapa que antecede os testes em humanos e envolve estudos com células e animais. Nessa fase, o sexo dos modelos biológicos nem sempre era considerado uma variável relevante, o que podia deixar de revelar diferenças na resposta a doenças e tratamentos.

    Em 2015, o NIH (National Institutes of Health), principal agência federal de pesquisa biomédica dos Estados Unidos, passou a exigir que os pesquisadores considerassem o sexo como variável biológica nos estudos com humanos e animais vertebrados que financia. A política entrou em vigor para novas solicitações de financiamento em janeiro de 2016.

    As diferenças também aparecem no atendimento. Um estudo dinamarquês publicado na revista Nature Communications em 2019 analisou 6,9 milhões de pessoas, toda a população do país durante 21 anos, e mostrou que mulheres são diagnosticadas em média 4 anos mais tarde que homens em centenas de condições de saúde, incluindo atraso de 4,5 anos em doenças metabólicas e 2,5 anos em câncer.

    No Brasil, a dificuldade de registrar as queixas também pode esconder problemas de saúde. Um estudo da Vital Strategies Brasil analisou prontuários de mais de 469 mil meninas e mulheres de 10 a 49 anos atendidas na rede pública do Recife. A pesquisa mostrou que registros de dor menstrual ou pélvica apareciam em apenas 0,5% dos casos quando considerados os códigos oficiais de doenças.

    Outra pesquisa, publicada em junho deste ano na revista científica Canadian Medical Association Journal, analisou casos de traumatismo cranioencefálico. O estudo mostrou que mulheres têm 26% menos chances de serem encaminhadas a centros médicos especializados do que homens, mesmo quando têm o mesmo grau de lesão, idade e comorbidades. O estudo analisou mais de 50 mil canadenses entre 2009 e 2020.

    Na ginecologia, Caser cita a endometriose como exemplo de uma doença cuja compreensão mudou ao longo do tempo. Durante décadas, uma das principais hipóteses sobre sua origem era a menstruação retrógrada, quando parte do sangue menstrual retorna pelas trompas para a cavidade pélvica. Hoje, sabe-se que a doença é complexa e envolve fatores genéticos, imunológicos e hormonais.

    Outro exemplo é o rastreamento do câncer do colo do útero. O exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, é usado há décadas para identificar alterações nas células do colo do útero. Em 2024, porém, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS (Sistema Único de Saúde) testes moleculares para detectar o HPV oncogênico.

    A nova estratégia é mais sensível para identificar infecções associadas ao câncer e deverá substituir o Papanicolau como principal método de rastreamento, que ficará voltado à confirmação de casos positivos.

    A ginecologista também chama atenção para áreas que passaram a receber maior investimento, como menopausa, síndrome dos ovários policísticos e microbioma vaginal.

    Para ela, a ampliação da pesquisa nesses campos faz parte de uma mudança mais ampla na ciência, que começa a tratar a saúde feminina não apenas como um conjunto de doenças relacionadas à reprodução, mas como um campo de investigação próprio.

    ‘Quando a gente começar a olhar para os estudos já nos corpos femininos, entender quais são as diferenças e inserir isso dentro da educação médica, dentro dos protocolos, dentro do fluxo, a gente vai ter uma antecipação de diagnóstico’, afirma.

    Stephani Caser participa nesta quinta-feira (13) de uma mesa sobre saúde feminina e tecnologia no festival SP2B (São Paulo Beyond Business), no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Estarão também presentes Sofia Reinach, gerente de saúde do Instituto Alana, Ana Bonassa e Laura Marise, cientistas e comunicadoras, e Cristina Naumovs, consultora de criatividade.

    Femtechs, dados e cuidado: Quando a tecnologia vai além da medicina feita para eles Quinta (13), das 11h30 às 12h30 Palco: Beyond – Decoding Life A ciência e a medicina por décadas usaram o corpo masculino como padrão, gerando lacunas no diagnóstico, no tratamento e no desenho de soluções para mulheres. O painel discute como corrigir esses vieses, ampliar quem pesquisa e decide, e fortalecer inovações em saúde feminina —como femtechs e modelos de cuidado mais integrados, acessíveis e humanizados— para tornar a saúde mais justa e efetiva.

    Tipos de ingresso para o evento

    SP2B – São Paulo Beyond Business Parque Ibirapuera – av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Vila Mariana, região sul. Entrada pelos portões 2, 3, 7 e 10. De 9 a 16/8. Ingr.: a partir de R$ 320 (Z Pass) em Ticketmaster. Programação completa em sp2b.com.br

    fonte batanews

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