O aumento das temperaturas no Brasil pode pesar no orçamento das famílias e elevar o valor das contas de energia elétrica, principalmente devido ao uso mais frequente de aparelhos de ar-condicionado. O alerta foi feito pelo geólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Côrtes, em análise publicada nesta terça-feira (13).
Mesmo com a bandeira tarifária verde em outubro, que elimina a cobrança adicional por condições de geração de energia, o aumento do consumo pode resultar em contas mais caras. Isso ocorre porque o valor pago pelo consumidor também depende da quantidade de eletricidade utilizada ao longo do mês.
Consumo residencial bate recorde
Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo residencial médio de energia elétrica, calculado com base nos últimos 12 meses, chegou a 181,8 quilowatts-hora (kWh) mensais em agosto de 2026. Esse foi o maior patamar desde o início da série histórica, em 2004.
Na comparação com agosto de 2025, o consumo residencial cresceu 6,9%. No comércio, a alta foi ainda maior, de 9,4%, enquanto a indústria registrou avanço de 0,2%.
O aumento da demanda está relacionado a diferentes fatores, entre eles a utilização de equipamentos de climatização, que exigem mais eletricidade durante períodos de temperaturas elevadas.
El Niño pode intensificar o calor
Outro fator de preocupação é a previsão de um episódio de El Niño muito forte entre outubro e dezembro deste ano.
De acordo com um boletim divulgado em 30 de setembro por órgãos federais de monitoramento climático, havia estimativa de 95% de probabilidade de ocorrência desse cenário no período.
O fenômeno altera os padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta. No Brasil, seus efeitos variam conforme a localização, mas as projeções indicam possibilidade de temperaturas muito elevadas em áreas do Centro-Norte do país.
Com o calor intenso, a tendência é de maior utilização de aparelhos de ar-condicionado e outros equipamentos de refrigeração, aumentando a pressão sobre o sistema elétrico.
Além do crescimento do consumo, o uso simultâneo desses aparelhos pode sobrecarregar transformadores e circuitos de distribuição, especialmente nos horários de maior demanda, como o início da noite.
Famílias de baixa renda podem sentir mais o impacto
O aumento do consumo também representa um desafio para famílias com menor capacidade financeira, especialmente aquelas que dependem de benefícios tarifários para reduzir os gastos com energia.
A Tarifa Social de Energia Elétrica prevê gratuidade sobre os primeiros 80 kWh mensais consumidos pelas famílias que atendem aos critérios do programa. Entretanto, o consumo que ultrapassa esse limite continua sujeito à cobrança.
Assim, uma residência que aumenta o consumo de 80 para 150 kWh passa a ter 70 kWh adicionais sujeitos à cobrança, o que pode elevar a despesa mensal mesmo sem reajuste na tarifa.
Investimentos na rede são necessários
Na avaliação de Pedro Côrtes, o avanço das temperaturas reforça a necessidade de investimentos na modernização das redes de distribuição de energia elétrica.
O especialista defende que os recursos destinados ao setor sejam direcionados de acordo com as necessidades de cada região, com identificação de áreas vulneráveis e acompanhamento dos resultados.
Medidas como o uso de equipamentos mais eficientes, a melhoria da ventilação e o sombreamento das edificações também podem contribuir para reduzir a necessidade de climatização artificial.
Embora a bandeira verde represente um alívio temporário, o aumento do consumo provocado pelo calor pode continuar elevando as despesas das famílias. O desafio será atender à demanda crescente e preparar a infraestrutura elétrica sem transferir custos desnecessários aos consumidores. *Com informações da CNN.
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