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    SUS precisa de plano de ação para não interromper atendimento de câncer em crise climática ou sanitária

    BarthimanBarthimanoutubro 14, 2026
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    No pior momento da pandemia, em maio de 2020, as mamografias e os exames de papanicolau feitos no SUS (Sistema Único de Saúde) caíram mais de 80%, e as biópsias, quase 70%. As cirurgias oncológicas recuaram cerca de 25% na primeira onda. A ruptura na linha de cuidado do câncer também foi observada nas inundações de 2024 no Rio Grande do Sul.

    Com secas, enchentes e ondas de calor cada vez mais frequentes, o Brasil precisa planejar como manter o tratamento de câncer em crises. O alerta vem de artigo publicado nesta terça (13) na revista The Lancet Regional Health – Americas.

    O trabalho é assinado por pesquisadores da Iarc (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à OMS), do Inca (Instituto Nacional de Câncer), da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), da Fiocruz, do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e de sociedades médicas e entidades de pacientes.

    O texto reúne recomendações discutidas em uma oficina realizada em dezembro de 2025 no Rio de Janeiro. A proposta é que a doença passe a fazer parte dos planos de resposta a desastres no Brasil, com um comitê permanente e um fundo de emergência para que pacientes com câncer não fiquem sem diagnóstico e tratamento nessas situações.

    ‘A ideia é que, quando a crise chega, alguém precisa olhar especificamente para o câncer. Na pandemia, não havia diretrizes nacionais específicas para o cuidado oncológico em situações de crise, e as decisões variaram muito entre estados e serviços’, diz a pesquisadora Heloise Fernandes Agreli, da Iarc, autora principal do artigo.

    Segundo ela, o comitê seria uma instância técnica permanente dentro do SUS, coordenada pelo Ministério da Saúde e pelo Inca, com uma liderança técnica definida e regras claras de sucessão, para não depender de quem está no cargo naquele momento.

    Segundo estudo do Inca, o rastreamento oncológico só voltou ao nível anterior à pandemia em 2022. ‘Voltar ao patamar não significa recuperar o que deixou de ser feito’, diz Agreli. Para ela, ficou uma demanda represada, que se soma ao aumento expressivo de casos esperado para os próximos anos.

    De acordo com a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), a queda abrupta do rastreamento e do diagnóstico do câncer durante a pandemia criou preocupação com diagnósticos mais tardios, mas ainda não há um levantamento nacional que permita quantificar esse efeito ou atribuí-lo exclusivamente à pandemia.

    O impacto sobre a mortalidade, segundo a médica, é ainda mais difícil de medir, porque leva anos para aparecer. ‘O que o artigo reforça é que atrasos em diagnóstico e tratamento têm consequências diretas e que precisamos de sistemas preparados para monitorar essas interrupções em tempo real e com agilidade para se adaptar’, diz ela, que também assina o trabalho.

    Em 2020, as mortes de pessoas com câncer por outras causas, incluindo a Covid, aumentaram 82% em relação ao período pré-pandêmico. Já um estudo sobre o período de 2020 a 2022 encontrou mortalidade por câncer cerca de 5% abaixo da esperada.

    Para Agreli, os números não se contradizem: muitos pacientes oncológicos morreram de Covid, e esses óbitos tendem a ser registrados com a infecção como causa básica.

    Em relação às enchentes gaúchas, não há estimativa consolidada de atrasos nem de mortes, apenas relatos de profissionais que indicam interrupções sérias, sobretudo no acesso ao tratamento. ‘Um centro de radioterapia pode estar funcionando perfeitamente, mas, se o paciente não consegue chegar, o tratamento para do mesmo jeito’, diz Agreli.

    A psicóloga Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia e que também contribuiu para o artigo, afirma que o paciente precisa ter a segurança de que seu cuidado vai continuar, mesmo quando o cenário ao redor muda. ‘Essa continuidade precisa ser um compromisso de Estado.’

    ‘Para quem está tratando um câncer, uma interrupção pode significar perder uma sessão, ficar sem medicamento, não conseguir chegar ao hospital ou não saber onde buscar atendimento. E isso pode comprometer o tratamento, além de trazer uma insegurança enorme para a pessoa e para a família.’

    Uma medida que faria grande diferença, segundo Baldotto, seria ter um plano regional de contingência previamente definido, com centros alternativos de atendimento, rotas de transporte, estoques estratégicos, comunicação entre serviços e um sistema que permitisse localizar rapidamente os pacientes em tratamento ativo.

    A ideia dialoga com as funções previstas para o comitê técnico de crise oncológica. O grupo teria três atribuições: levar o câncer às discussões com defesa civil e regulação de leitos desde o primeiro dia; definir o que não pode parar e quanto tempo um exame pode ser adiado; e articular comitês regionais, já que uma inundação no Sul e uma seca na Amazônia exigem respostas diferentes.

    Outra recomendação é fixar antes da crise os critérios para priorizar pacientes quando faltarem leitos, remédios ou radioterapia. A escolha, diz Agreli, não pode ‘cair no colo dos profissionais de saúde na ponta, sozinhos, no meio do caos’.

    Os critérios, segundo os pesquisadores, devem considerar a agressividade do tumor, a janela em que o tratamento ainda faz diferença e quem historicamente tem menos acesso, como moradores distantes dos centros de referência.

    O artigo também sugere adaptar terapias para uso oral ou domiciliar quando possível, usar unidades móveis em áreas isoladas, garantir energia de reserva e refrigeração para medicamentos e criar estoques estratégicos de insumos.

    Há, porém, obstáculos importantes no SUS. ‘Muitos medicamentos orais modernos ainda não estão amplamente disponíveis. Essa estratégia precisa vir acompanhada de políticas de acesso, estoque, financiamento e logística. Não pode depender apenas de mudar a via de administração em momentos de crise’, diz Baldotto.

    Embora o artigo tenha como foco o SUS, crises como pandemias ou enchentes também atingem a rede privada, segundo a médica. Elas dificultam o transporte, o acesso aos hospitais, a disponibilidade de profissionais, o funcionamento da infraestrutura e as cadeias de suprimento. ‘Em uma crise real, não faz sentido planejar SUS e saúde suplementar como sistemas completamente separados. Em geral, um passa a depender do outro’, afirma.

    Os autores lembram que o gasto público responde por cerca de 45% do total em saúde no Brasil, ante média de 75% nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Diante do subfinanciamento, propõem fundos de emergência com receitas vinculadas de tributos sobre tabaco e álcool, modelo de destinação já usado em países como Filipinas e Tailândia, embora não voltado a crises. Ainda não há estimativa de arrecadação para o Brasil.

    O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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