Nos corredores de hospitais e clínicas oncológicas, é comum ver pacientes chegarem sozinhos às sessões de quimioterapia, radioterapia ou consultas. O silêncio entre uma cadeira e outra diz mais do que palavras, revela o peso de uma luta travada não só contra o câncer, mas contra o isolamento humano.
O abandono que dói mais que a doença
De acordo com psicólogos e assistentes sociais que atuam na área da oncologia, o abandono emocional e físico é mais frequente do que se imagina. Alguns pacientes relatam terem sido deixados por parceiros logo após o diagnóstico. Outros, embora não abandonados oficialmente, enfrentam o descaso e o afastamento gradual de pessoas próximas.
“Quando descobri o câncer de mama, achei que meu marido seria meu porto seguro. Mas ele não suportou a rotina das consultas e simplesmente foi embora. Tive que aprender a lidar com tudo sozinha”, conta Maria, 52 anos, paciente do SUS em tratamento há dois anos.
Casos como o de Maria revelam que a doença, muitas vezes, expõe as fragilidades das relações humanas. Segundo especialistas, o medo, a falta de preparo emocional e o tabu em torno do câncer fazem com que muitas pessoas se afastem, não por falta de amor, mas por não saberem lidar com a dor do outro.
Homens também sofrem em silêncio
Embora as mulheres relatem com mais frequência o abandono, os homens também enfrentam a solidão durante o tratamento. O estigma da “fraqueza” e o medo de demonstrar vulnerabilidade fazem com que muitos se isolem por conta própria, sem buscar apoio emocional ou psicológico.
“Os homens tendem a internalizar o sofrimento. Muitos deixam de comparecer aos grupos de apoio e preferem esconder a doença, o que agrava o sentimento de isolamento”, explica a psicóloga oncológica Renata Silva.
A importância do afeto no processo de cura
Diversos estudos mostram que o apoio afetivo e familiar tem impacto direto na resposta ao tratamento e na qualidade de vida dos pacientes oncológicos. O amor, a presença e o simples ato de acompanhar alguém em uma consulta podem se tornar poderosos remédios contra o desânimo e a desesperança.
“Ter alguém ao lado não cura o câncer, mas dá força para seguir lutando. O paciente que se sente amado enfrenta melhor a dor, a queda de cabelo, o enjoo e o medo”, afirma Renata.
Solidão que inspira empatia
Em meio a tantas histórias de abandono, também existem gestos de solidariedade que aquecem o coração. Voluntários, amigos e até desconhecidos têm se unido para acompanhar pacientes em seus tratamentos, oferecendo carona, escuta e companhia.
O desafio, porém, é transformar a empatia em cultura: entender que o câncer não é apenas uma doença física, mas uma travessia emocional que exige presença, não de piedade, mas de humanidade.
Se você conhece alguém em tratamento contra o câncer, não se afaste. Ligue, visite, ofereça companhia. A presença pode não curar o corpo, mas cura o que o remédio não alcança: a alma.





