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    Brasil perde vantagem sobre EUA na rentabilidade do etanol de milho

    BarthimanBarthimanagosto 20, 2026
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    O mercado mundial de etanol sempre foi dominado pelos Estados Unidos e pelo Brasil. Os norte-americanos construíram sua indústria sobre o milho, diante da abundância de grãos na região do Corn Belt; o Brasil, sobre a cana-de-açúcar, com o hidratado disputando diretamente com a gasolina na bomba. Por décadas, comparar a rentabilidade das duas indústrias foi um exercício de utilidade limitada: matérias-primas, processos e calendários tão distintos impediam uma comparação direta das margens e dificultavam a identificação de suas causas. A consolidação do etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro mudou esse quadro. Atualmente, as usinas de Mato Grosso processam o cereal pelo mesmo processo de moagem que o dos norte-americanos, o que permite comparar as margens.

    A trajetória brasileira é notável pela rapidez. Segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia), a produção de etanol de milho no Centro-Sul saiu de 37 mil m³ na safra 2013/14 para 521 mil m³ em 2017/18 e 9,2 bilhões de litros em 2025/26 – volume que, somado à produção nordestina, levou o total nacional a 10,17 bilhões de litros, ou pouco mais de 27% de todo o etanol produzido no País.

    Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, para gerar essa produção, o milho processado pelas usinas saltou de 1,3 milhão de toneladas na safra 2017/18 para 22,4 milhões de toneladas em 2025/26, com o Maranhão já respondendo por 1,6 milhão de toneladas e a Bahia entrando em operação no ciclo atual. Para 2026/27, a Conab projeta 11,4 bilhões de litros, e a Unem (União Nacional do Etanol de Milho) projeta que a produção nacional de etanol de milho alcance 16,63 bilhões de litros até a safra 2033/34 – o que, com os rendimentos atuais, implicaria uma demanda de cerca de 38 milhões de toneladas de milho –, consolidando o milho de segunda safra como peça central da demanda doméstica pelo cereal.

    Os Estados Unidos, por sua vez, destinam ao etanol um volume estável de milho há uma década, entre 130 milhões e 141 milhões de toneladas por ano, segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), enquanto o Brasil cresce a taxas de 20% a 30% ao ano. Em 2017, o volume brasileiro equivalia a apenas 0,7% do volume norte-americano; em 2025, já alcançou 15,5%. É uma indústria madura e estagnada de um lado, e uma indústria jovem em plena expansão do outro, e é justamente esse contraste que torna a comparação de rentabilidade tão interessante.

    Para comparar a rentabilidade do esmagamento, o Cepea calculou a margem bruta como a receita combinada de etanol, DDG (Dried Distillers Grains) e óleo de milho, deduzido apenas o custo do grão. Nos Estados Unidos, assume-se que uma tonelada de milho rende 440 litros de etanol, 303,6 kg de DDGs e 13,4 litros de óleo.

    Utilizaram-se os preços disponibilizados pelo Center for Agricultural and Rural Development, da Iowa State University, que considera os preços do milho e do etanol a partir dos contratos futuros negociados na CME Group (Bolsa de Chicago), ajustados pelo basis; o preço do DDG está relacionado ao do milho; e o óleo vem do USDA Weekly Grains Report. No Brasil, uma tonelada de milho também rende 440 litros de etanol, 331 kg de DDG e 20,4 litros de óleo. As cotações de referência são para o norte de Mato Grosso; os dados de milho e de etanol são do Cepea; o DDG vem da Scot Consultoria; e o óleo, do valor de exportação (Comex), líquido de frete. Como os preços são nominais em moeda local, evitou-se comparar o tamanho absoluto da margem: os indicadores relevantes são o retorno sobre o custo do milho (ROI) e a margem bruta sobre a receita, ambos expressos em percentuais em cada país.

    A primeira diferença estrutural observa-se na composição da receita. Entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o etanol respondeu, em média, por 75,0% da receita na simulação para os Estados Unidos (oscilando entre 56,5% e 84,9%), contra 68,1% no Brasil (de 59,5% a 77,5%). Na indústria brasileira, a receita do DDG representou, em média, 25,9% da receita, ante 19,7% nos EUA; a participação média do óleo foi de 6,0% no Brasil e de 5,4% nos EUA.

    No Brasil, os preços do milho têm correlação de 93,0% com os do DDG, de 70,3% com os do etanol e de 65,7% com os do óleo. Nos Estados Unidos, os preços do milho apresentaram correlação de 84,7% com os do etanol, um nível próximo aos 83,5% com os do DDG, enquanto a correlação com os preços do óleo ficou em 62,1%.

    Nos últimos meses, a participação do etanol caiu nos dois países, mas por razões opostas: nos Estados Unidos, o óleo de milho disparou – alta de 55% no primeiro semestre de 2026, impulsionada pela demanda por combustível renovável –, enquanto no Brasil todos os preços recuaram, com o etanol caindo mais (-28% em seis meses) e o DDG resistindo (-7%), o que elevou a fatia do coproduto.

    O retrato de mais de seis anos é claro: o esmagamento de milho foi consistentemente mais rentável no Brasil. O ROI médio brasileiro sobre o preço do milho entre 2020 e junho de 2026 foi de 72%, contra 44,5% nos Estados Unidos; a margem bruta média foi de 40,7% no Brasil, ante 30,1% nos Estados Unidos. As duas séries caminham juntas, ou seja, são correlacionadas – altas e baixas costumam coincidir, com picos e vales norte-americanos ligeiramente defasados –, mas o nível norte-americano permanece sistematicamente inferior. As exceções foram breves: abril e maio de 2020, setembro a novembro de 2020, abril de 2021 e março de 2025.

    O ano de 2026, porém, trouxe uma inflexão que chama a atenção. O Brasil iniciou o ano no auge – ROI de 112% e margem de 53% em fevereiro, reflexo dos menores preços do milho devido à safra abundante e do etanol ainda valorizado e, desde então, viu a rentabilidade ceder mês a mês, chegando a junho com ROI de 65% e margem de 39%. Os Estados Unidos fizeram o caminho inverso: partiram de um ROI de 46% em janeiro e alcançaram 78% em junho, com margem de 44%, superando o Brasil pela primeira vez desde março de 2025 e registrando uma superioridade inédita na série.

    De um lado, preços brasileiros em queda generalizada; do outro, etanol e DDGS norte-americanos estáveis e óleo de milho em forte valorização. É uma mudança relevante na dinâmica dos mercados, mas um único mês não permite afirmar se se trata de um reposicionamento duradouro da competitividade relativa ou de uma inversão passageira. A resposta dependerá, sobretudo, da sustentação do prêmio do óleo norte-americano e da recuperação dos preços do etanol no mercado doméstico brasileiro.

    No geral, pode-se dizer que a indústria brasileira de etanol de milho atingiu, em uma década, paridade tecnológica com a norte-americana e operou, na maior parte do tempo, com retornos superiores, ancorados em matéria-prima competitiva, especialmente no Cerrado, e em uma receita importante proveniente dos dois principais coprodutos. Se os volumes ainda guardam distância, a rentabilidade explica por que essa distância vem se reduzindo tão depressa: enquanto o retorno sobre o custo do grão se mantiver nos patamares observados, novas plantas continuarão saindo do papel.

    O episódio recente de reversão de margens merece monitoramento, mas não altera o essencial – o etanol de milho deixou de ser uma iniciativa regional para se tornar um dos vetores mais dinâmicos da demanda por grãos no Brasil. Na avaliação final, também será importante considerar os demais custos não contemplados nesta análise, como o uso de biomassa no Brasil e de gás natural nos Estados Unidos, bem como a venda de energia excedente e de CBIOs (créditos de descarbonização).

    fonte batanews

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