O tratamento do câncer de mama vem avançando a passos largos. Em 2026, o maior congresso de oncologia do mundo, a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), trouxe várias inovações com terapias mais eficazes, menos efeitos colaterais e um olhar atento ao estilo de vida das pacientes.
Um dos grandes destaques do congresso foi a possibilidade de evitar quimioterapia após a cirurgia em mulheres com câncer de mama mais avançado do tipo luminal (aquele com receptores hormonais e sem expressão elevada da proteína HER-2), mesmo antes da menopausa.
O estudo OPTIMA demonstrou que um teste feito no próprio tumor, chamado Prosigna, consegue identificar pacientes que têm pouquíssimo benefício com quimioterapia, à semelhança dos renomados testes Oncotype DX e MammaPrint.
Mas o grande diferencial do Prosigna é que ele conseguiu avaliar um grupo de maior risco, para o qual esses outros testes não são indicados, como mulheres com idade acima de 40 anos na pré-menopausa e com muitos gânglios comprometidos na axila.
Vale ressaltar que para este grupo de pacientes nem o Oncotype DX nem o Mammaprint se mostraram capazes de prever quem não devia receber quimioterapia. Assim, todas as mulheres neste contexto recebiam quimioterapia adjuvante. Graças ao Prosigna, cerca de 68% das pacientes puderam evitar a quimioterapia com segurança, mantendo as chances de cura e afastando efeitos colaterais.
Ainda para os tumores luminais, vimos confirmado o grande benefício de um novo remédio anti-hormonal na adjuvância, o giredestranto, que se mostrou mais potente do que as terapias clássicas, como o tamoxifeno e os inibidores da aromatase. O comprimido giredestranto reduziu o risco de recorrência do câncer tanto versus tamoxifeno como versus inibidores da aromatase, além de ser melhor tolerado pelas pacientes. Esse medicamento deve ser aprovado em breve nos Estados Unidos.
Já para o câncer de mama triplo-negativo (aquele sem receptor hormonal e sem expressão elevada do HER-2), os holofotes se voltaram para os chamados ADCs (anticorpo droga-conjugados), medicamentos que funcionam como mísseis inteligentes.
Eles são anticorpos direcionados que levam a quimioterapia diretamente para dentro das células cancerígenas e depois podem destruir também células tumorais vizinhas.
Os ADCs sacituzumabe govitecana e datopotamabe deruxtecana, por exemplo, provaram ser mais eficazes do que a quimioterapia comum quando usados como primeira opção de tratamento em mulheres com doença disseminada para outros órgãos (metástases), melhorando o nosso arsenal contra esse tumor historicamente mais agressivo.
Por outro lado, nas pacientes sem metástases, os pesquisadores exploraram uma forma de turbinar a imunoterapia, tratamento que estimula o sistema imune contra o tumor. O estudo P-RAD mostrou que fazer radioterapia na mama durante a primeira dose de imunoterapia aumentou as chances de eliminar a doença na mama e até mesmo nos gânglios da axila que não foram irradiados.
Mas lembre-se: o tratamento do câncer vai muito além do consultório e da farmácia. Um estudo italiano trouxe resultados surpreendentes para o tumor luminal: mulheres que seguiram à risca uma dieta mediterrânea com baixo índice glicêmico, fizeram caminhada rápida por 30 minutos ao dia e receberam suplementação de vitamina D tiveram uma redução impressionante de 76% no risco de o câncer voltar.
Nessa mesma linha, também entrou em debate o uso de medicamentos modernos para diabetes e perda de peso, como as famosas semaglutida e tirzepatida, medicamentos das populares canetas antiobesidade, conhecidas como canetas emagrecedoras.
Um estudo retrospectivo sugeriu que pacientes com tumores relacionados à obesidade, como o câncer de mama, que usaram esses remédios tiveram uma redução de 30 a 50% no risco de metástases, quando comparado a outra classe comum de remédios para diabetes. Além disso, observou-se 30% menos casos novos de câncer de mama em mulheres com obesidade que usaram essas medicações.
Embora sejam necessários estudos mais robustos para confirmar esse papel protetor, os resultados são realmente encorajadores. Os avanços apresentados na ASCO de 2026 reafirmaram que o tratamento do câncer de mama está cada vez mais eficaz, aumentando as chances de controle e cura da doença.
O grande aprendizado é que a medicina de ponta e os nossos hábitos de vida caminham juntos. Cuidar da alimentação, controlar o peso e se exercitar são atitudes que fazem a diferença na prevenção e no combate ao tumor, trazendo um otimismo renovado para as pacientes e seus familiares.
*Antonio Carlos Buzaid, diretor Médico Geral do Centro de Oncologia do Hospital Nove de Julho e Samaritano, Rede Américas e fundador do Instituto Vencer o Câncer
*Jéssica Ribeiro Gomes é oncologista clínica da Rede Meridional (ES)




