Em 24 de setembro de 1955, o presidente americano Dwight Eisenhower sofreu um ataque cardíaco. Com o pânico gerado e a ânsia por determinar as causas de um problema que estava se tornando cada vez mais prevalente, os cientistas foram atrás dos culpados. Um dos principais alvos dali em diante estaria na alimentação: a gordura.
Tudo começou quando um influente médico, Ancel Keys, postulou, depois de uma viagem a Itália, onde ouvira que ali as taxas de infarto eram menores que nos Estados Unidos, que a explicação para o elo residia na ingestão de gordura animal. Após influenciar outros doutores, um corpo de cardiologistas passou a reunir dados em defesa da tese. Foi assim que o ovo, o leite e as carnes entraram na corda bamba.
Durante décadas, entidades respeitadas como a Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês) preconizaram a restrição de gordura pelo bem do peito. Até que alguns médicos começaram a chafurdar nas evidências e a tocar novos estudos para esclarecer essa história.
O que se descobriu foi que a epidemia de doença cardiovascular nos Estados Unidos continuava à solta. E a população engordara como nunca. Por quê? Porque cortaram a gordura e o colesterol da comida e caíram de boca nos redutos de açúcar e carboidratos refinados. Foi um erro gigantesco.
O episódio, marcado posteriormente pela denúncia de que associações ligadas à indústria do açúcar chegaram a influenciar vieses e tomadas de decisão, escancara que, mesmo arvorando o que supostamente seriam fatos científicos, a medicina pode falhar. Não à toa, é um dos casos emblemáticos que compõem o livro Pontos Cegos, do cirurgião e pesquisador americano Marty Makary, recém-publicado pela Editora Objetiva.
A obra retrata alguns dos maiores equívocos na prática clínica moderna, provocados por dogmas enraizados entre os profissionais, má interpretação de estudos, pesquisas com metodologia ruim ou duvidosa e ação de lobistas. E revela que, graças a algumas mentes abertas, é possível reparar erros e salvar vidas e o bem-estar de milhões de pessoas ainda que a correção de rumo possa levar bastante tempo. “Por cerca de sessenta anos, a AHA se negou a questionar o dogma de que a redução de colesterol dietético e gordura saturada era benéfica para o coração”, registra Makary, ligado à Universidade Johns Hopkins, nos EUA.
De fato, só depois de estudos populacionais e laboratoriais deixarem claro que o risco cardíaco não dependia apenas disso, é que entidades passaram a rever a posição. Hoje se sabe que o excesso de gordura saturada pode ser nocivo às artérias, mas não é um fator isolado como esse que fará alguém infartar. Quem se entope de fast food, doces e outras fontes de carboidratos também planta um atentado aos vasos sanguíneos.
Um mito ainda maior é o de que o colesterol da comida é o vilão dos vilões. Mais de 70% dessas partículas que trafegam pelo corpo são produzidas no fígado, e o impacto do colesterol de ovos e companhia nos níveis de colesterol no sangue é extremamente modesto. Em resumo: por anos defendeu-se uma medida que não isentaria a humanidade de perigos.
Outro incidente revelado pelo livro é o da alergia ao amendoim. O alimento mobilizou uma caça às bruxas nos EUA. A ponto de os pediatras só autorizarem a ingestão após os 3 anos de idade. Até que alguns especialistas notaram que os casos de alergia alimentar só aumentavam. A partir de experimentos bem conduzidos, desvendou-se que a exposição tardia ao amendoim elevava, na realidade, as chances de uma reação alérgica. Quando se introduzia a oleaginosa mais cedo na rotina do bebê, a imunidade se sensibilizava e havia menor risco de repercussões.
Em termos de saúde pública global, talvez nenhum tropeço tenha sido tão estrondoso quanto o da prescrição desenfreada de antibióticos. Esses medicamentos são essenciais para conter infecções sérias e letais, mas, ao serem alçados ao posto de panaceia a partir dos anos 1950, seu uso indiscriminado (sobretudo em crianças) propiciou alterações na flora intestinal hoje associadas a doenças crônicas e alimentou bactérias resistentes que ameaçam o futuro da nossa espécie. Boas intenções, péssimas consequências.
Na mesma linha, médicos subestimaram o potencial viciante de opioides, e sua utilização desmedida criou um surto de dependência química. Assim como, com base em um estudo mal revisado e mal interpretado de 2002, inúmeras mulheres foram privadas de reposição hormonal na menopausa sob o temor de desenvolver o câncer de mama.
O establishment da medicina, escreve Makary, “equivocou-se sobre a terapia de reposição hormonal por 22 anos; sobre o uso adequado de antibióticos por sessenta anos; sobre a alergia ao amendoim por quinze anos; e sobre as propriedades viciantes dos opioides por vinte anos”. Felizmente, alguns profissionais corajosos decidiram romper com a inércia e a visão de manada munidos de provas da ciência, sempre fundamentais. Errar é humano, mas persistir no erro pode ser fatal.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977




