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    Eleitor reclama, mas torce por Lula

    BarthimanBarthimanmarço 23, 2024
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    Passado pouco mais de 1 ano da posse de Lula 3, as últimas pesquisas não trouxeram boas notícias para o presidente e seu governo. Estas pesquisas indicam a percepção de que há um evidente desgaste de material, como se o governo tivesse envelhecido rapidamente. A queda na popularidade do presidente Lula, é uma foto do humor da população, especialmente os brasileiros em idade produtiva, maioria dos eleitores e os maiores descontentes.

    É praticamente unânime o sentimento de que Lula até aqui fez muito menos que o esperado. Na pesquisa Datafolha, a última a ser divulgada, os dados estampados no relatório completo (PDF – 965 kB) indicam que, neste momento, 58%, ou 2/3 dos brasileiros, estão frustrados porque apostaram que Lula 3 entregaria mais e melhor. Outros 56% dizem que a vida não melhorou nem piorou; ficou igual ao que era. Ou seja: as pessoas acham que estão andando de lado.

    E, aqui, é preciso fazer uma ressalva. Não é simplesmente uma questão de comunicação a qual, por sinal, tem sido conduzida por um profissional da área, o ministro Paulo Pimenta, jornalista de formação acostumado às manhas e artimanhas do ramo. Se Pimenta pode ser considerado o profissional certo no lugar certo, o mesmo não acontece com a ministra da Saúde Nísia Trindade.

    Ela certamente tem inúmeras qualidades profissionais, porém tem se mostrado pior do que a encomenda e tenta explicar a tempestade de críticas dizendo ser vítima de machismo. Nísia precisa entender que o eleitor percebe o poder de duas formas: atitude e resultado. No caso dela, não há nem um e nem outro. E mais: será a ministra Simone Tebet vítima de machismo? E a ministra Esther Dweck?

    A Saúde tem sido um dos calos do governo Lula 3, com a epidemia de dengue infernizando a vida dos brasileiros, especialmente os mais pobres, que convivem com o mosquito há 40 anos e sabem que a prevenção é o mais importante. Mas isso não foi feito por uma ministra que veio da Fundação Oswaldo Cruz, cujo patrono que lhe empresta o nome ficou famoso justamente por combater o mosquito da febre amarela no início do século 20.

    A segurança pública é outro ponto nevrálgico do governo. Está nas mãos do ministro Ricardo Lewandowski, um cavalheiro, culto, elegante, profissional do direito de reconhecida competência. Diferentemente do ministro Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança de São Paulo, Lewandowski não tem traquejo para lidar com a bandidagem do submundo do crime. Está levando um passeio dos 2 fugitivos da penitenciária de Mossoró (RN) que, sumidos há mais de mês, dificilmente serão recapturados.

    Aqui, novamente, faltou atitude e resultado. Junte-se a isso duas ou 3 frases do presidente a favor do bandido que rouba celular ou do cidadão que rouba uma farmácia porque precisa de um remédio, e o estrago está consumado.

    Outro ponto é a insistência do ministro Luiz Marinho em mexer com coisas que funcionam bem sem interferência do Poder Público, como a atividade dos profissionais dos aplicativos de transporte ou entregas.

    Desde que o governo começou a mexer nesse vespeiro, a maioria esmagadora dos profissionais ficou contra. Dizem que trabalham quando querem, na hora que desejam e sempre recebem em dia. Se acham patrões deles mesmos. E nunca é demais lembrar que um motorista fala com 10, 20, 30 pessoas num dia de trabalho.

    Empresários de todos os tamanhos, incluindo os micros, também não estão satisfeitos com o desempenho do presidente: 71% desaprovam. Há muita desconfiança, como mostrou a repórter Raquel Landim ao relatar o clima de decepção com o presidente Lula em artigo publicado no Estadão.

    E há ainda a brutal rejeição ao imposto sindical, extinto por decisão do Congresso no governo Temer, que Marinho quer ressuscitar custe o que custar. O preço está ficando alto demais, porque não há trabalhador ou empresário disposto a pagar aquilo que a lei diz que ele não é obrigado a pagar. Aqui, a atitude retrógrada está ditando o resultado.

    A ampla maioria dos brasileiros de ambos os sexos, todas as classes sociais, níveis de renda e escolaridade diz que Lula fez pelo Brasil menos do que era esperado. Depositaram uma expectativa gigante e não se sentiram correspondidos. Isso ajuda a explicar por que 1/3 dos eleitores que ganham até 2 salários mínimos avalia o desempenho de Lula como ruim ou péssimo, mesma opinião de 39% daqueles com renda de 2 a 5 mínimos.

    Dentre os mais pobres, apenas 40% consideram o desempenho de Lula ótimo ou bom. Para um governo que diz priorizar os pobres, isso é um problema. Não vi as pesquisas qualitativas, mas um presidente que viaja muito e está focado todo o tempo na agenda internacional pode estar passando a sensação de que, para ele, os assuntos da política internacional são mais importantes do que as questões domésticas.

    O presidente da República é o político mais experiente em atividade. Entre a política sindical e a política partidária já se vão 50 anos de estrada. É dono de enorme carisma e habilidade para lidar com políticos e eleitores, porém não tem nada de novo para oferecer ao respeitável público. A única novidade é que Lula fala de Bolsonaro um dia sim e outro também. Depende do ex-presidente para manter a polarização alta.

    A pesquisa Datafolha também mostra que pelo menos 30% do eleitorado considera o desempenho de Lula regular. Ou seja, está esperando para ver se embarca na aprovação ou na rejeição. Lula, com sua experiência de ter disputado 6 eleições presidenciais e vencido 3, sabe que seu destino está atrelado ao humor desses 30% estacionados no regular. São eles que determinarão seu êxito ou fracasso.

    O mais importante na pesquisa do Datafolha é tendência do eleitorado em dar a Lula um voto de confiança. Na média geral, são 45% aqueles que acreditam que Lula fará um governo melhor daqui para frente. Dentre os que ganham até 2 mínimos são 49% e dentre os menos escolarizados, 53% (o maior percentual entre todas as categorias). Eles estão dizendo: “Presidente, nós estamos aqui esperando o senhor cumprir o que prometeu. Não nos decepcione’. O risco é não acontecer nada e o crédito de confiança se transformar em frustração.

    Entre uma viagem e outra, Lula poderia gastar 10 minutos do seu tempo conferindo o discurso que Tancredo Neves preparou para sua posse na Presidência, mas que a tragédia o impediu de ler. Nele, estão reflexões como esta, de um político de 75 anos, ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas, ex-primeiro-ministro, ex-governador de Minas:

    “Quando falamos de povo não pensamos em uma entidade abstrata, que possa ser eventualmente conduzida em trilhas de equívoco, pelo fanatismo ou pela demagogia. Pensamos no povo como soma de razões e virtudes, que sempre prevalecem, para impor lucidez à história, restaurando o que se deve restaurar, abandonando o que se deve abandonar e construindo o que se deve construir’.

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