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    Menos conhecidas, hepatites D e E também circulam no Brasil e preocupam

    BarthimanBarthimanagosto 20, 2026
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    Quando se fala em hepatite viral, os tipos A, B e C costumam ser os mais lembrados, mas eles não são os únicos capazes de causar a infecção no fígado. As hepatites D e E também circulam no Brasil e podem provocar complicações graves, embora ainda sejam pouco investigadas e diagnosticadas.

    Uma revisão de 200 estudos liderada por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita reuniu dados de 14,5 milhões de pessoas para traçar um panorama das hepatites virais no país. Publicada na revista PLOS One em julho, a pesquisa considerou trabalhos realizados entre 2013 e 2024 e mostra que a frequência das hepatites D e E pode ser expressiva em determinados grupos e localidades.

    Em alguns estudos, a prevalência da hepatite D, também conhecida como Delta, ultrapassou 20% na região amazônica. Já a hepatite E apresentou índices de até 59% em levantamentos realizados no Sul.

    ‘A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica’, avalia o patologista João Renato Rebello Pinho, coordenador do estudo.

    Embora todas sejam chamadas de hepatites virais, as infecções não são iguais. Os vírus A, B, C, D e E apresentam diferentes formas de transmissão, evolução e prevenção. As hepatites A e E estão principalmente relacionadas à ingestão de água ou alimentos contaminados. Já os tipos B, C e D estão associados principalmente ao contato sexual, com sangue e outros fluidos corporais, embora existam diferenças importantes entre elas.

    A hepatite D tem uma particularidade: ela depende do vírus da hepatite B para infectar o organismo. Por isso, a vacinação contra a hepatite B também é uma forma de prevenir a hepatite D. É justamente essa relação que ajuda a explicar por que ela aparece com maior frequência em algumas áreas onde o vírus B é mais comum.

    A infecção pode ser especialmente grave. Como ocorre em pessoas que têm o vírus da hepatite B, a associação entre os dois vírus pode aumentar o risco de danos ao fígado. ‘O vírus D utiliza o vírus B, mesmo que esse esteja aparentemente controlado, e reativa a doença, por isso a correlação entre eles’, explica Pinho. A transmissão dos vírus B e D está relacionada ao contato com sangue e fluidos corporais, incluindo relações sexuais sem preservativo.

    No Brasil, os estudos indicam predominância do genótipo 3 do vírus D na Amazônia, variante associada a quadros mais graves. ‘É uma doença de tratamento complexo e conta com poucas ferramentas de diagnóstico e manejo. Não temos, por exemplo, um teste rápido para hepatite Delta’, observa o patologista. ‘Além disso, ela é mais frequente no Brasil em populações pobres e mais isoladas, como ribeirinhos e indígenas, gerando uma série de entraves para o acesso à saúde, que dificultam o prognóstico desses pacientes.’

    Apenas 16 trabalhos sobre hepatite D foram incluídos na revisão. Como a doença é pouco estudada, não está claro o motivo de ela não se espalhar pelo Brasil, como ocorreu com o genótipo 1, que se difundiu nos países europeus do Mediterrâneo a partir do continente africano. ‘Uma das hipóteses que temos é que, como o genótipo 3 leva a infecções mais graves, os atingidos viajam menos e possuem menos contato com outras populações’, analisa o pesquisador do Einstein.

    A hepatite E apresenta características diferentes. O vírus pode ser transmitido pela ingestão de água e alimentos contaminados e também está presente em animais, especialmente em suínos. No Brasil, o genótipo 3 é predominante. Diferentemente de outras variantes do vírus E, associadas a grandes surtos em algumas partes do mundo, essa tende a apresentar um comportamento menos agressivo. Ainda assim, a infecção pode causar lesões graves no fígado e, em determinadas situações, levar à necessidade de transplante.

    Estudos realizados em animais identificaram a presença do vírus da hepatite E em porcos de diferentes regiões do país. Por isso, a infecção humana é mais frequente entre pessoas que vivem ou trabalham próximas a animais infectados. Na revisão, a prevalência da hepatite E na população geral variou de 0,9% a 59,4%, com os principais índices registrados em estudos realizados no Sul, região com importante atividade de criação de suínos. ‘Os estudos feitos em animais brasileiros detectaram porcos com hepatite E em todas as regiões do Brasil’, observa João Renato Pinho.

    Segundo o patologista, não se sabe exatamente quantas pessoas têm hepatite E, já que se testa pouco. ‘O que os levantamentos indicam é que pessoas negativas para os demais vírus da hepatite podem ter, na verdade, essa forma da doença’, relata. A hepatite E foi incluída em apenas 30 dos 200 estudos analisados, outro indicador da falta de dados sobre sua ocorrência no território nacional.

    A escassez de estudos sobre as hepatites D e E dificulta entender não apenas quantas pessoas estão infectadas, mas também como os vírus circulam e quais grupos estão mais expostos. O problema é relevante porque uma pessoa pode apresentar uma infecção sem sintomas durante parte de sua evolução. Sem investigação adequada, casos podem permanecer sem diagnóstico e, consequentemente, sem acompanhamento e tratamento.

    A revisão também evidencia uma limitação importante: a distribuição observada das hepatites D e E pode refletir a circulação dos vírus, mas apenas onde existem mais pesquisas e em populações foram avaliadas.

    ‘O Brasil acumula importantes avanços no enfrentamento das hepatites virais, especialmente por meio da ampliação do acesso à vacinação, ao diagnóstico e ao tratamento. Mas é preciso fortalecer a vacinação sempre e aumentar nossa base de dados para a saúde pública coordenar esforços e cumprir seu objetivo de eliminar a hepatite da lista de problemas de saúde pública até 2030, como é a meta da Organização Mundial da Saúde’, conclui o médico do Einstein.

    fonte batanews

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