As redes sociais criam uma ilusão de conexão e podem aprofundar o isolamento.

Aplicativos de namoro ampliam encontros sexuais, mas contribuem para o fim do romance. Já os algoritmos podem servir de desculpa para se evitar encarar os próprios desejos.

As três avaliações são do norte-americano Bruce Fink, doutor em psicanálise pela Universidade Paris 8 e tradutor de obras de Jacques Lacan para o inglês.

Em entrevista ao UOL, ele analisa como a tecnologia e os hábitos contemporâneos afetam os relacionamentos e a relação das pessoas com sua própria individualidade.

Fink vem ao Brasil pela primeira vez em novembro para participar de atividades do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), em São Paulo. No próximo sábado (7), dará um seminário sobre o amor.

Como as redes sociais afetam nossos relacionamentos?A maioria dos observadores concorda que as conexões proporcionadas pelas redes sociais são bastante superficiais. Elas criam uma ilusão de proximidade, quando, na verdade, nos deixam isolados diante de uma tela de computador ou de celular. Na conversa cara a cara, o inesperado e o espontâneo ganham espaço, abrindo caminhos para estreitar ou expandir os laços. Isso raramente acontece por meio de mensagens de texto, e-mails ou redes sociais. Como costumo dizer: "Toda comunicação [virtual] acaba sendo uma falha de comunicação". Depender excessivamente desses meios tende a enfraquecer e até desgastar as relações, em vez de cultivá-las e fortalecê-las, o que acaba por acentuar o isolamento das pessoas.

Como as redes sociais afetam nossa relação com a própria imagem?O uso das redes sociais acentua a preocupação constante das pessoas com a forma com que são vistas, afastando-as do inconsciente e de seus próprios impulsos. Quanto mais se concentram em comparações, em como são vistas e em como veem os outros, menos prestam atenção no que chamei de "O Sujeito Lacaniano"--em outras palavras, o sujeito do inconsciente.

Os algoritmos nos afastam dos próprios desejos?Ouço com frequência pacientes relatarem que se depararam com conteúdos pornográficos que não estavam buscando, mas que lhes foram sugeridos por algoritmos. Com isso, eles tentam se desvencilhar da responsabilidade pelo que consomem (e, geralmente, pelo ato de se masturbarem com aquilo), como se o simples clique em uma sugestão os transformasse em meros espectadores passivos. Essa é mais uma tentativa de mascarar os próprios desejos e impulsos, mantendo-os sob a superfície. No entanto, esses impulsos não deixaram de existir nem mudaram em sua essência; foram apenas deslocados em direção a outro "objeto" -- afinal, como bem apontou Freud, não há nada mais maleável e variável do que o "objeto da pulsão".

Os aplicativos de namoro estão acabando com o romance?Eu diria que os aplicativos de namoro ampliaram nossas possibilidades de encontros sexuais, mas contribuíram drasticamente para o declínio dos encontros românticos. A maioria dos pacientes que utiliza essas plataformas transa logo no primeiro encontro com quem deu match, e quase nada em termos de romance costuma se desenvolver a partir daí. Esses aplicativos alimentam a ilusão de que existe um parceiro ideal para cada um de nós -- alguém com quem simplesmente "combina" e com quem uma relação de longo prazo não exigiria um esforço enorme, aprendizado constante e lidar com altos e baixos. No entanto, convém lembrar que essa fantasia sempre esteve presente na cultura ocidental, seja na literatura romântica, no cinema ou na televisão.

A pressão por desempenho também provoca sofrimento psicológico?Tais imperativos ampliam aquela sensação, que no fundo já nos acompanha, de que sempre estamos perdendo algo, de que não somos bons o suficiente ou de que ainda não "chegamos lá". A psicanálise pode, evidentemente, ajudar as pessoas a lidarem melhor com o estresse e com as dinâmicas no ambiente de trabalho. No entanto, ao lançar luz sobre os desejos inconscientes, o analista frequentemente ajuda o analisando a perceber que vinha perseguindo objetivos que, na verdade, não eram seus. É a partir dessa escuta que muitos se encorajam a realizar transições de carreira, reconfigurar seus relacionamentos ou migrar para jornadas de trabalho de meio período, abrindo espaço para se dedicarem a atividades criativas, artísticas ou musicais.

Rótulos de saúde mental ajudam a compreender o sofrimento?Na psicanálise, incentivamos os pacientes a explorar por que são como são e como se tornaram o que se tornaram. Agarrar-se a um diagnóstico como TDAH ou a um rótulo como "trauma" (TEPT) encerra esse processo e, em geral, torna essa exploração impossível. As pessoas parecem muito felizes em adotar esses rótulos hoje como explicações prontamente disponíveis para todos os seus problemas. Rotular outras pessoas como "narcisistas" é uma nova forma de condená-las e descartá-las como defeituosas; antes usávamos termos antigos menos psicológicos como "egocêntrico" e "egoísta". Todos nós somos narcisistas até certo ponto, então rotular as pessoas dessa maneira não traz muito valor.

Qual é o papel da falta e da ansiedade na vida psíquica?Para Lacan, a falta é a fonte do desejo, e assim, sem falta, não pode haver desejo. A psicanálise foca muito mais em descobrir e trazer à tona os desejos do paciente, e em ajudá-los a encontrar um modo de perseguir esses desejos, do que em satisfação imediata -por exemplo, sufocando os desejos ao se entregar à gratificação imediata na forma de comida, bebida, drogas etc. Os lacanianos, por outro lado, acreditam que a ansiedade é inevitável na vida e pode sinalizar para nós áreas importantes a serem exploradas. Os psicanalistas não devem prometer felicidade ao final da análise, e sim a capacidade de perseguir o que se quer.

Lacan afirma que "relação sexual não existe" e que a relação idealizada é uma fantasia. Como isso pode nos ajudar a entender crises românticas e insatisfação em relacionamentos?Expectativas irreais sobre parceiros e relacionamentos começaram há séculos, desde pelo menos o surgimento do romance literário no século 16, senão mil anos antes com as obras de Homero. Romances e filmes da Disney apenas pioraram a situação, assim como a promoção contemporânea da ideia de "parceiro certo" ou "parceiro perfeito", refletida na ideia de "match" em aplicativos de namoro. Hoje, casais costumam terminar ou se divorciar diante de qualquer dificuldade ou imprevisto, ou por pequenos problemas de comunicação e falhas na hora de entender os desejos e motivos do outro.

O que fazer para contornar esses problemas?Problemas e insatisfações sempre existiram nas relações, mas chegamos a um momento da história em que o mundo social das pessoas está cada vez menor. Com isso, o parceiro carrega um peso enorme, sendo muitas vezes a única pessoa com quem se interage no dia, ou até na semana ou no mês. Esse relacionamento amoroso virou, em alguns casos, a única relação real que a pessoa tem (já que o resto é "virtual"), e quase tudo depende dele. Assim, qualquer pequena diferença entre o casal começa a parecer gigante e a gerar um desgaste enorme. Em contrapartida, a psicanálise defende que devemos aceitar que o parceiro é radicalmente diferente de nós -- uma tarefa difícil, mas extremamente saudável.

Como equilibrar as dimensões individuais e sociais do sofrimento?Os psicanalistas precisam estar cientes das condições políticas, sociais e materiais nas quais cada um de seus pacientes viveu enquanto era criança e continua a viver como adulto, condições que podem ser diferentes das dos analistas. Mas isso não deve fazê-los perder de vista o fato de que as pessoas quase sempre acabam culpando suas dificuldades na vida por essas condições, a fim de não admitirem o quanto se colocam no caminho.

O que distingue a escuta de um psicanalista da interação com uma inteligência artificial?Boa parte do trabalho não tem a ver com empatia, na minha visão. Os psicoterapeutas que se orgulham de serem empáticos com seus pacientes estão na essência fazendo o que é conhecido como "psicoterapia de apoio". Nosso trabalho não é apoiar, mas interromper e desmantelar. O que desmantelamos e interrompemos? As imagens ideais e autossuficientes que nossos pacientes têm de si mesmos, que excluem tudo que é desagradável, "socialmente inaceitável" e perturbador dentro de si. Se, por outro lado, prestarmos atenção ao que se expressa em seus deslizes de língua, sonhos, devaneios e fantasias, perceberemos que o que realmente desejam é com frequência diametralmente oposto ao que dizem querer.