Os representantes dos clubes mantiveram um discurso catastrófico sobre o veto às bets na audiência realizada no STF ontem (3), afirmaram especialistas em marketing e finanças ao UOL. O teor alarmista, ponderam, encobre a má gestão financeira da maioria das equipes, anterior à chegada dos volumosos patrocínios das casas de apostas.
"O tom dos clubes é de catástrofe, como não poderia ser diferente. São alguns dos agentes mais impactados pelo fim abrupto das operações de bets. Apenas vejo que o argumento do desemprego versus o impacto social das apostas é a via mais frágil, pois parece desproporcional", afirma Cesar Grafietti, economista e consultor especializado em finanças do futebol.
Amir Somoggi, diretor da Sports Value, avalia que "o discurso alarmista" que se viu no STF não o surpreende. Há um apelo emocional com a ideia do "fim do futebol", diz, algo que "não faz nenhum sentido com o tamanho do mercado brasileiro".
Sob o prenúncio do veto, em setembro, as equipes brasileiras já haviam publicado a nota conjunta apontando que o futebol poderia acabar no país. A MP foi confirmada na semana seguinte.
Ontem, no STF, o presidente do Fluminense, Matheus Montenegro, indicou que a atenção ao drama das famílias endividadas deve se dividir com "o drama do desemprego", que, segundo ele, será o resultado da MP da proibição às casas de apostas. "O que os clubes vão fazer se a receita acabar?", questionou.
Representante do Botafogo, Bichara Neto afirmou que, em "uma muito conclusão lógica", o futebol feminino e as categorias de base seriam os primeiros afetados.
A perda dos clubes com o veto é inegável: a receita recorrente das principais equipes da Série A caiu até um quarto após a proibição, segundo levantamento produzido para o UOL. Além dos clubes, a CBF estimou a perda de R$ 420 milhões em 2027 sem as bets.
Mas, para os especialistas ouvidos pela reportagem, não foi a proibição o responsável por levar os clubes a um cenário de "caos financeiro".
Para Cesar Grafietti, embora a argumentação acerca do desemprego seja frágil, a alegação sobre a segurança jurídica e o planejamento, também defendida pelos clubes, soa mais justa. O problema, segundo ele, é o que os clubes fizeram com o dinheiro injetado pelas bets.
"O que eu considero mau uso é o fato de se endividarem além do efeito positivo das receitas incomuns. Mostra uma necessidade incontrolável pelo gasto sem lastro e sem qualidade", afirma. O resultado está em campo: o Brasileirão não ficou melhor, apenas "muito mais caro".
O veto, prossegue o consultor, não é a origem do caos financeiro - exceção feita a seis ou sete clubes. "As dívidas e atrasos não surgiram agora. A proibição é só mais um item nesse cardápio vasto de problemas."
Amir Somoggi entende que os clubes erram ao não "gastarem energia" para buscar novos patrocínios e novos setores além das casas de aposta: "Na Europa, é comum clubes que têm 30 patrocinadores terem duas marcas na camisa. Na média, aqui no Brasil são oito. Dá pra buscar setores muito mais interessantes."
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, reconhece que os clubes têm "argumentos legítimos" para defender seus contratos, mas ressalva que o debate não pode se limitar ao impacto financeiro: o futebol "tem uma responsabilidade social muito grande".
A proibição pode pesar nos clubes que contavam com esses contratos, diz Wolff, mas não explica todos os problemas. "O patrocínio é uma fonte de receita, não uma solução estrutural para problemas administrativos." O caminho, defende, é gestão responsável, diversificação de receitas e previsibilidade regulatória.
Na leitura de Amir Somoggi, a chegada das bets provocou "exclusivamente uma inflação da folha salarial", sem melhora de marca nem expansão de negócio. "Gastaram tudo, vão ao banco, fazem empréstimo com o contrato da bet. É meramente mais dinheiro entrando e mais dinheiro saindo."
O patrocínio das bets é "easy money", que dispensa ativação e marketing criativo, pontua Somoggi. "Os clubes são viciados em dinheiro, estão sempre alavancados, pagando juros, endividados para vender o almoço para pagar o jantar", afirma. A saída, conclui, é buscar setores como financeiro, alimentação, bebidas, saúde, varejo e streaming.
Dirigentes de marketing de dois grandes clubes brasileiros afirmaram ao UOL, sem se identificarem, que o dano é muito expressivo e afetará a todos de forma crítica. Porém, fazem projeções distintas a partir da proibição.
Um deles avalia que é, sim, possível se adaptar aos vetos - "o futebol brasileiro não vai acabar", diz -, mas a ruptura deveria ser mais lenta, como ocorreu na Inglaterra, pontua.
O outro dirigente tem uma avaliação mais pessimista, ao dizer que a redução nas receitas já estava em andamento mesmo com as casas de aposta, e prevê um "caos financeiro". Não há, para ele, um segmento capaz de abarcar o espaço deixado pelo setor.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, discursou durante a audiência no STF, e apresentou dados da pasta sobre o vício em apostas: 28 milhões de pessoas apostaram nos últimos 12 meses, sendo 10,9 milhões com padrões de risco ou comportamento problemático,
A procura pelo SUS por problemas relacionados à ludopatia cresceu 200% entre 2018 e 2025, com 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão, sendo 40% por perda de controle.
"Estamos diante de um produto de altíssimo risco. Ou se afasta esse produto da população, ou o risco vai continuar para a população brasileira. E temos danos que são ampliados: sofrimento mental, endividamento, violência e fragilização familiar", afirmou o ministro.
No ano passado, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as apostas esportivas, segundo o Boletim Fiscal dos Estados do Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda).


