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    Home»Destaque»O mito da andropausa e a banalização do uso de testosterona
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    O mito da andropausa e a banalização do uso de testosterona

    BarthimanBarthimanfevereiro 17, 2026
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    Nos últimos anos, multiplicaram-se as prescrições de testosterona para homens, muitas vezes sem critérios médicos sólidos. O discurso da “reposição hormonal masculina” ganhou força, como se os homens experimentassem algo semelhante à menopausa feminina e devessem recorrer igualmente à reposição de hormônios perdidos.

    A equivalência é falsa, pois, enquanto as mulheres param de produzir hormônios em determinado momento da vida, os homens, em sua maioria, mantêm níveis normais mesmo em idade avançada. Não à toa, o termo popular “andropausa” nem mesmo existe na literatura médica. Na prática, o que se tem chamado – erroneamente – de “reposição hormonal masculina” não passa de uma terapia anabolizante.

    Estatisticamente, apenas 17% dos homens na faixa dos 40 aos 80 anos de idade têm níveis de testosterona inferiores ao mínimo considerado normal e apenas 2,1% deles têm critério diagnóstico para, de fato, referendar necessidade de reposição hormonal, sendo essa prevalência de 0,1% entre homens de 40 a 49 anos e de 5,1% entre os de 70 a 79 anos, conforme estudos recentes. Existe um declínio na produção de testosterona, que, no entanto, é gradual e representa um problema para um número muito reduzido de pacientes, como revelam os números.

    O que tem ocorrido é que a batalha contra o processo natural do envelhecimento, antes protagonizada por mulheres, chegou com força ao universo masculino. Agora, os homens vêm buscando nos hormônios a solução de problemas como baixa libido, cansaço, obesidade, controle do diabetes e até melhora da potência sexual. Enganam-se, porém, os que pensam que um frasco de comprimidos pode resolver todas essas questões da noite para o dia.

    Na verdade, o mais preocupante é ultrapassar os níveis normais de testosterona, o que pode ocorrer quando se faz uso do hormônio sem real necessidade. As consequências vão de acne e queda de cabelo a alterações hepáticas, arritmias, cardiomiopatia, crescimento da próstata, elevação do PSA, maior incidência de infarto e aceleração de tumores prostáticos. Além desses efeitos, há ainda o impacto comportamental. Estudos mostram que níveis elevados de testosterona aumentam a agressividade e podem influenciar até risco de violência sexual, como observado em pesquisas com animais. Ignorar esse dado é fechar os olhos para aspectos sociais de grande relevância.

    Muitas vezes, o uso indiscriminado da substância vem mascarado pela linguagem. Termos como “reposição” ou “modulação hormonal” suavizam a percepção do tratamento, mas o fato é que não se pode repor o que não está faltando. A administração do hormônio sem que haja deficiência comprovada é anabolização. Simples assim. Chamar a esse tratamento de reposição é, no mínimo, uma estratégia de marketing.

    Sempre peço aos meus pacientes que experimentem contar, em uma reunião de família e amigos, que estão recebendo terapia anabolizante (em vez de usar a expressão “reposição hormonal”) e observem a reação daqueles que lhes querem bem de verdade. Nem seria preciso dizer, mas não se deve brincar com a saúde.

    Há, é verdade, situações específicas que podem ser tratadas com o hormônio, como o chamado hipogonadismo de início tardio, cujo diagnóstico, no entanto, deve ser feito mediante critérios rigorosos: duas dosagens matinais de testosterona livre abaixo de 220 pmol/ml, associadas a determinados sintomas (baixo desejo sexual, ereção matinal fraca e disfunção erétil). Fora disso, o tratamento não se sustenta.

    A banalização da testosterona é um erro médico e social. Homens que buscam qualidade de vida devem ser orientados para o básico: alimentação saudável, exercícios físicos, sono adequado, abandono do tabagismo, controle de doenças crônicas (diabetes, hipertensão, obesidade) com medicação adequada e uso de remédios específicos para libido e ereção têm mais eficiência no tratamento. Esses fatores exercem impacto real sobre libido, energia e bem-estar. A testosterona só deve ser usada quando há diagnóstico claro e sob monitoramento rigoroso.

    Em resumo, o que andam chamando de “andropausa” não passa de um mito. Existe uma tendência perigosa de medicalizar o envelhecimento masculino com hormônios, que, em excesso, podem causar mais danos do que benefícios. É hora de chamar as coisas pelo nome certo: reposição sem deficiência é anabolização – e transformar anabolização em moda médica é brincar com a saúde de milhões de homens.

    * Cassio Andreoni é urologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

     

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