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    Home»Destaque»Os náufragos: pessoas com obesidade grave estão em uma ilha esquecida
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    Os náufragos: pessoas com obesidade grave estão em uma ilha esquecida

    BarthimanBarthimanfevereiro 12, 2025
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    Vivemos em um grande oceano chamado Brasil que possui uma ilha isolada e esquecida onde habitam as pessoas com obesidade grave, com pouco ou quase nenhum recurso financeiro para se tratar. São milhões que navegam por anos em um barco sem destino, tentando aportar em clínicas, postos de saúde e hospitais sem sucesso. Em determinado momento, sem esperança, naufragam e acabam nessa ilha.

    A jornada nessas águas começa cedo. A falta de informação, aliada ao baixo orçamento doméstico, faz com que eles comam o que é possível. A imensa oferta e variedade de alimentos ultraprocessados, refrigerantes e doces, muitas vezes mais baratos, os fazem tomar essa rota.

    Reféns de uma doença, que lhes dá mais fome e capacidade de acumular gordura, eles cruzam a linha da obesidade e dificilmente conseguem voltar de lá – ao menos sem ajuda!

    Estive nessa ilha por dez anos. Operei e atendi mais de 10 mil náufragos na rede pública. Infelizmente, um dia um barco me levou de lá, mesmo contra a minha vontade. Nesse meio tempo, escutei histórias assustadoras.

    Durante os longos anos no mar eles vivenciam a falta de atendimento médico e de outros profissionais qualificados, se perdem, enfrentam tempestades de diversas doenças, como hipertensão, diabetes e problemas respiratórios, dermatológicos e ortopédicos, sem falar no preconceito. É raro encontrar um bote salva-vidas. E, mesmo quando o alcançam, devido à falta de recursos, logo abandonam o tratamento e tudo vai se agravando.

    Como em qualquer decisão de benefício populacional, a figura do político se faz necessária para que recursos e ações cheguem por lá. Mas dificilmente é avistada na costa dessa ilha qualquer tipo de balsa, barco ou navio com remédios, médicos, nutricionistas, psicólogos e enfermeiros. A sensação de abandono é como a de um náufrago.

    A ilha seria a última esperança, mas falta tudo por lá. Calcula-se, entre milhões de pessoas nessa situação, somente 7 000 sesses náufragos sejam resgatados. Fato: só existem 98 serviços voltados à obesidade mórbida ou severa habilitados pelo SUS. Caso o paciente afunde em Roraima, Rondônia, Amapá ou Amazonas, não terá ninguém para lhe salvar.

    A cada ano, temos mais pacientes que ficam mais obesos e com mais doenças, dificultando tecnicamente o resgate, quando é que ele acontece.

    Só quem esteve na ilha sabe do que estou falando. Realizar cirurgia em um paciente superobeso, mal alimentado e com muitas doenças concomitantes, torna tudo mais difícil. Cicatrização e recuperação necessitam de boa nutrição e organismo equilibrado – estar obeso, convém esclarecer, não é sinal de boa nutrição.

    Como em uma ilha, eles comem pouca proteína e nutrientes adequados para que tenham tecidos e órgãos saudáveis, tornado a cirurgia extremamente delicada e necessitando de cirurgiões altamente treinados nesse resgate. Do contrário tudo se perderá.

    A chegada de novos tratamentos e medicamentos poderia beneficiar esses ilhéus, mas eles ainda estão disponíveis apenas em iates e veleiros, não em botes ou canoas. A grana (ou a falta dela) pesa.

    Quando estive por lá, nessa ilha, lembro-me de que os pacientes náufragos me enxergavam como esse barco de salvamento. Quando tive que deixar essa ilha e navegar pelo oceano, trouxe comigo a lembrança diária dessas pessoas. E o objetivo de dizer a toda sociedade que essa ilha existe e precisa de nós.

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