Há décadas, a metformina faz parte da rotina de milhões de pessoas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, por ajudar a controlar os níveis de glicose no sangue e melhorar a resposta do organismo à insulina. Isso faz com que a substância seja uma das mais utilizadas para o tratamento do diabetes tipo 2.
Sabemos, também, de seu importante papel na prevenção da progressão do pré-diabetes para o diabetes em indivíduos com maior risco para a doença.
Embora o uso da metformina para o controle glicêmico já fosse consolidado na literatura científica, as pesquisas se expandiram para outros espectros terapêuticos. Estudos mais recentes mostram que os benefícios se estendem para além do controle metabólico, com impactos positivos no sistema neurológico.
Dados apresentados no congresso da American Diabetes Association (ADA) apontam que os participantes com pré-diabetes, originalmente designados para receber metformina, apresentaram uma probabilidade 58% menor de desenvolver demência, em comparação com aqueles que receberam placebo (comprimidos inertes).
Esta análise incluiu 1.483 pessoas, com idade média de 74 anos, avaliadas quanto ao status cognitivo num período de seguimento entre 2022 e 2024. Trata-se da continuação de um dos mais importantes estudos clínicos a analisar o impacto de mudanças no estilo de vida e uso de metformina em pessoas portadoras de pré-diabetes, com o objetivo de prevenir a evolução para o diabetes tipo 2.
Agora, os pesquisadores observaram melhora no desempenho cognitivo ao longo do tempo no grupo tratado com metformina. Estes resultados, relativos à cognição, somam-se a um histórico robusto de evidências acumuladas ao longo de mais de duas décadas de acompanhamento dos participantes do programa.
Em 2025, dados publicados demonstraram de forma consistente que os benefícios da metformina, observados no estudo original, permaneciam evidentes após 21 anos de seguimento, com redução sustentada do risco de desenvolvimento do diabetes tipo 2, inclusive convergindo com as mudanças intensivas no estilo de vida, sendo até superiores numa população menos idosa, quando a prevenção do declínio cognitivo pode ser mais eficiente.
Embora os autores ressaltem que o número de casos de demência avaliados ainda seja relativamente pequeno e que novos acompanhamentos sejam necessários para confirmar os resultados, os achados representam um importante avanço no entendimento da relação, há muito tempo observada, entre a saúde metabólica e a saúde cerebral.
O interesse da comunidade científica pela possível associação entre a metformina e a proteção cerebral não surgiu por acaso. Estudos publicados nas últimas décadas vêm demonstrando que pessoas com pré-diabetes, diabetes e resistência à insulina podem apresentar maior risco de comprometimento cognitivo e demência ao longo do processo de envelhecimento.
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Isso acontece porque alterações metabólicas persistentes podem desencadear processos inflamatórios, danos vasculares, acúmulo de placas tóxicas aos neurônios, e muitos outros distúrbios neuronais, que afetam o funcionamento do cérebro com o passar dos anos.
Em razão disso, alguns pesquisadores têm explorado a relação entre alterações metabólicas e mecanismos envolvidos na doença de Alzheimer, hipótese que continua sendo objeto de investigação científica. O declínio cognitivo mostrou-se significativo já na fase de pré-diabetes, em um estudo longitudinal de envelhecimento no Reino Unido.
Nesse contexto, a hipótese de que a metformina possa contribuir para a preservação da função cognitiva tem despertado grande interesse científico.
É importante salientar que a metformina não possui indicação aprovada para prevenção ou tratamento de demência ou doença de Alzheimer. Os resultados apresentados derivam de análises científicas observadas em estudos clínicos e contribuem para a compreensão da relação entre saúde metabólica e função cognitiva.
Entretanto, tais achados não constituem recomendação para utilização da metformina com essa finalidade, sendo necessários estudos adicionais para confirmar esses resultados. Sendo assim, o que temos no horizonte é um campo fértil para pesquisas nessa área.
Por fim, à medida que a população envelhece e a prevalência de doenças neurodegenerativas aumenta, compreender a relação entre o metabolismo e a saúde cerebral constitui uma janela de oportunidade na constante busca pela longevidade e a qualidade de vida.
* Luciano Giacaglia é endocrinologista e coordenador do Departamento de Pré-Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes




