Jamie Selzler, 47 anos, começou a usar o medicamento Wegovy para perder peso em 2023, após enfrentar dificuldades até mesmo para caminhar por causa do ganho de peso. Segundo ele, o emagrecimento tornou a prática de atividades físicas mais viável.
Desde então, Selzler passou a caminhar ou fazer trilhas de mais de 11 quilômetros por dia em Fargo, no estado da Dakota do Norte (EUA), além de praticar musculação quatro vezes por semana. Recentemente, ele também concluiu uma certificação como personal trainer.
Para muitos americanos, os medicamentos para perda de peso, conhecidos como GLP-1, estão transformando a forma como as pessoas lidam com os exercícios físicos e, em alguns casos, mudando a visão de uma atividade que antes era associada à vergonha ou obrigação.
Em entrevistas ao jornal americano New York Times, mais de uma dúzia de pessoas que utilizam medicamentos como Ozempic para tratar obesidade ou diabetes relataram que passaram a enxergar o exercício de maneira diferente. Livres da pressão de se exercitar apenas para queimar calorias ou perder quilos, muitos disseram ter redescoberto o prazer de se movimentar.
Em vez de enxergar a atividade física como uma punição por comer demais, essas pessoas passaram a encará-la como um caminho para o bem-estar.
Segundo a nutricionista Summer Kessel, especializada no tratamento da obesidade e usuária do medicamento Zepbound, quando alguém tenta emagrecer sem esse tipo de remédio, muitas vezes fica consumido pelos cálculos de quanto comer ou quanto se exercitar.
“A maioria das pessoas não tem espaço mental, enquanto está de dieta, para se perguntar: ‘Por que eu odeio exercícios?’. Os medicamentos podem libertar as pessoas para tomar decisões diferentes em relação à atividade física”, afirma.
Por décadas, a indústria do fitness esteve fortemente ligada à perda de peso. No entanto, a fisiologista do exercício Renee Rogers, pesquisadora de obesidade do Centro Médico da Universidade do Kansas, destaca que o exercício, sozinho, geralmente não é uma estratégia eficaz para emagrecimento.
Com a popularização desses medicamentos, especialistas acreditam que surge uma oportunidade de redefinir o papel da atividade física na vida das pessoas.
Muitos usuários relatam também maior motivação para a musculação. Dana Greene, 59 anos, conta que sempre encarou a academia como uma obrigação. Porém, ao começar a usar o medicamento Mounjaro, passou a se sentir animada para utilizar os aparelhos de musculação.
Dois anos após iniciar o tratamento, ela se surpreendeu com a própria disposição física. Quando uma árvore caiu em sua propriedade, Greene conseguiu cortá-la e removê-la sozinha em dois fins de semana. “Meu pai, meu irmão, todo mundo ficou impressionado”, relatou.
Para outras pessoas, os medicamentos também tornam o exercício fisicamente mais confortável. Lee Anglea, 57 anos, por exemplo, sofria com dores constantes nos tornozelos, joelhos, quadris e na lombar antes de iniciar o uso do Mounjaro, em 2024. Ela chegou a usar bengala para se locomover.
“Eu tinha pavor de exercícios. Se tentasse caminhar, sentia dor por dias”, contou.
Pouco depois da primeira dose, as dores começaram a diminuir. Anglea passou a aumentar gradualmente a quantidade de passos diários e iniciou treinos de resistência e aulas de yoga.
Com o tempo, percebeu melhora no bem-estar físico e mental. “Eu achava que quem dizia que exercício deixa a gente mais feliz não estava falando a verdade. Não conseguia entender como isso era possível”, disse.
No ano passado, ao cruzar a linha de chegada de sua primeira corrida de cinco quilômetros, ela não conseguiu conter a emoção. “Chorei como uma criança. Não conseguia acreditar”, relatou.
Algumas pessoas também passaram a mudar a forma de encarar a alimentação. Em vez de ver a comida como recompensa após o exercício, muitos passaram a entendê-la como combustível para manter o corpo ativo.
“Durante muitos anos, antes do GLP-1, eu via a comida como recompensa por me exercitar. Agora vejo a comida como combustível para meu movimento”, afirma Selzler.
Apesar dos relatos positivos, nem todos que utilizam medicamentos para emagrecimento têm experiências semelhantes. Fóruns online reúnem relatos de pessoas que enfrentam fadiga ou efeitos colaterais que dificultam a prática de atividades físicas.
Especialistas afirmam que, em alguns casos, esses problemas podem ocorrer porque os pacientes passam a comer ou beber menos do que o necessário. Como esses medicamentos reduzem o apetite — e também podem diminuir a sensação de sede —, algumas pessoas acabam ingerindo menos líquidos e nutrientes.
Além disso, na tentativa de preservar a massa muscular, muitos priorizam apenas o consumo de proteína, deixando de lado uma dieta equilibrada e a hidratação adequada, fatores importantes para a resistência e a força física.
A jogadora amadora de tênis Becky Hinman, 38 anos, descreve o medicamento Zepbound como “uma faca de dois gumes”. Embora tenha perdido peso, reduzido a dor no joelho e ganhado velocidade na quadra, ela passou a se cansar mais rapidamente durante as partidas.
Com o tempo, Hinman reduziu a dose do medicamento e ajustou a alimentação e a hidratação, o que ajudou a diminuir os efeitos colaterais.
Diante desse cenário, a indústria do fitness começa a se adaptar a um mundo em que promessas de emagrecimento rápido podem deixar de ser o principal atrativo para os clientes. Alguns profissionais veem os medicamentos como uma ameaça, enquanto outros já oferecem programas de exercícios voltados especificamente para quem utiliza esse tipo de tratamento.
Renee Rogers, que trabalha com o American Council on Exercise na orientação de profissionais sobre esses medicamentos, afirma que ainda é preciso cautela, já que não há muitas evidências científicas sobre programas específicos para esses pacientes.
Para ela, o mais importante é ajudar as pessoas a redescobrir o prazer no movimento.
“Não podemos ignorar que muitas pessoas que nunca se identificaram como praticantes de exercício, ou que tiveram experiências negativas, podem precisar de mais apoio para chegar lá”, afirma.
Selzler, por sua vez, diz que hoje não consegue imaginar a vida sem as longas caminhhadas pelos parques da Dakota do Norte ou sem acompanhar sua evolução na academia.
“É como se eu tivesse saído da prisão, e não vou voltar”, conclui.
*Com informações da Folha





