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    Home»Destaque»Não são só as ‘canetas’: dispositivos médicos irregulares inundam o comércio virtual
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    Não são só as ‘canetas’: dispositivos médicos irregulares inundam o comércio virtual

    BarthimanBarthimanmarço 27, 2026
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    Até a década de 1990, medir a pressão arterial ou tratar uma crise respiratória com nebulização exigia, quase sempre, a ida a um hospital ou a uma farmácia de grande porte. Com o avanço da tecnologia, esses dispositivos se tornaram mais compactos, portáteis e acessíveis — e passaram a fazer parte da rotina doméstica, facilitando desde a identificação de picos hipertensivos até o alívio de quadros respiratórios.

    Hoje, como tantos outros produtos, esses equipamentos também são vendidos pela internet. É justamente nesse ambiente que surge o problema: na liberdade do comércio on-line, grupos sem compromisso com a lei e com a segurança do consumidor têm conseguido driblar a fiscalização e oferecer aparelhos irregulares a preços atrativos.

    Na última semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizou uma operação em plataformas de e-commerce e identificou a venda de medidores de pressão, nebulizadores e oxímetros sem a devida regulamentação. A ação se soma a outras investigações que envolvem suplementos e medicamentos irregulares, como as chamadas “canetas emagrecedoras” contrabandeadas.

    O cenário é preocupante. Produtos piratas invadem o mercado digital e colocam em risco a saúde da população. Em meio à grande variedade de marcas e preços disponíveis nas vitrines virtuais, muitos consumidores não percebem que parte desses itens não passa por certificações obrigatórias, como as do Inmetro, responsáveis por garantir a segurança e o funcionamento adequado dos aparelhos.

    Um relatório da consultoria Nubimetrics revela a dimensão do problema: cerca de 36% dos medidores de pressão e 46% dos nebulizadores vendidos on-line no Brasil não são regulamentados. Em apenas um ano, a presença desses produtos suspeitos quase dobrou, enquanto a participação de marcas certificadas caiu significativamente. O mercado ilegal já movimenta milhões de reais.

    Esses dispositivos entram no país sem a devida identificação sanitária e acabam sendo distribuídos em plataformas digitais. Em uma fiscalização realizada no centro logístico do Mercado Livre, por exemplo, foram encontrados milhares de produtos sem registro e sem certificação — somente de medidores de pressão, mais de 1.600 unidades.

    Apesar de as plataformas afirmarem adotar medidas de controle, especialistas alertam que o risco permanece. Afinal, são equipamentos adquiridos com o objetivo de cuidar da saúde, mas que podem gerar diagnósticos incorretos ou até agravar quadros clínicos.

    No caso dos inaladores, muito utilizados por crianças, a preocupação é ainda maior. Para funcionarem corretamente, esses aparelhos precisam seguir padrões técnicos rigorosos, desde o fluxo da névoa até a segurança elétrica e a qualidade dos materiais internos. Sem isso, além de não surtirem efeito, podem expor o usuário a contaminações e substâncias tóxicas.

    Médicos relatam que, na prática, não é raro que crianças não apresentem melhora e precisem ser levadas ao pronto-socorro após o uso de aparelhos ineficazes. Em situações mais graves, dispositivos sem controle sanitário podem liberar metais pesados ou solventes, causando danos que vão de náuseas a lesões em órgãos como fígado, rins e sistema nervoso.

    Entre pacientes hipertensos — cerca de 30% dos brasileiros —, os riscos também são significativos. Medidores irregulares podem indicar valores errados, levando tanto à ausência de tratamento em casos graves quanto ao uso desnecessário de medicamentos, com efeitos colaterais como quedas e desmaios.

    O problema se agrava porque muitos profissionais de saúde utilizam medições feitas em casa como base para diagnóstico e acompanhamento, especialmente para evitar o chamado “efeito do avental branco”, quando a pressão se altera em ambientes clínicos.

    No campo dos medicamentos, a situação não é menos alarmante. Fórmulas manipuladas de forma irregular, especialmente ligadas ao tratamento de obesidade e diabetes, têm se espalhado impulsionadas pela popularidade de substâncias como semaglutida e tirzepatida. Operações recentes já identificaram milhares de frascos sem qualquer controle de qualidade, além de produtos contrabandeados entrando no país de formas inusitadas.

    Especialistas alertam que esses produtos representam um risco real à saúde pública, já que não há garantia sobre sua composição, armazenamento ou transporte adequado.

    Diante desse cenário, a recomendação é clara: adquirir medicamentos apenas em farmácias autorizadas e desconfiar de ofertas muito abaixo do preço de mercado. No caso de equipamentos, é fundamental verificar se o produto possui certificação, manual em português, garantia e assistência técnica.

    A economia imediata pode parecer vantajosa, mas, quando se trata de saúde, o barato pode sair muito caro. Em meio à crescente oferta de produtos irregulares, a atenção do consumidor e o reforço da fiscalização são essenciais para evitar prejuízos, e proteger vidas.

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