Pilar fundamental do bolsonarismo, o discurso antissistema assumiu perigosas silhuetas em passado recente. O quebra-quebra estúpido e inaceitável na Praça dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, foi a face mais visível de um movimento que tentava manter o grupo de Jair Bolsonaro no poder, e na marra. Condenadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da trama golpista, figuras emblemáticas da direita estão impedidas de participar das eleições de domingo 4. Contudo, se movimentam para pôr familiares em seu lugar, numa tentativa de manter acesa a chama do movimento e alguma influência em Brasília. “Além do apoio partidário, essas candidaturas refletem a radicalização no debate político”, diz a cientista política Tathiana Chicarino, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
O pleito, a rigor, ganhou contornos de primeira prova de fogo para determinar se o clã Bolsonaro seguirá, ou não, dando as cartas na direita. Pelo menos 22 nomes que conquistaram certa projeção com as manifestações e outras ofensivas antidemocráticas tentam vagas nas Assembleias Legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. São postulantes que têm como pautas prioritárias a anistia para quem participou dos atos de depredação e da tentativa de golpe de Estado, tratados como “presos políticos”. São bandeiras que receberam considerável impulso com as denúncias contra ministros do STF, envolvidos no escândalo do Banco Master e alçados à condição de inimigos número 1 dessa turma.
O apelo tem eco na sociedade. Segundo pesquisa do Datafolha, 48% dos brasileiros dizem não confiar na Corte. “O STF se acha o dono da verdade, porque os ministros não respondem a ninguém”, diz a advogada Carolina Siebra (Novo-CE), candidata a deputada federal, que preside a associação de familiares dos réus do 8 de Janeiro. “Precisamos pensar em uma reforma.” Se depender dos partidos que abrigam essas candidaturas, não faltarão recursos. Juntas, as campanhas somam 9 milhões de reais dos fundos eleitoral e partidário.
Rebeca Ramagem (PL-RJ), mulher do ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, condenado a dezesseis anos por conspirar contra a República e foragido nos Estados Unidos, recebeu 1,7 milhão de reais para uma campanha um tanto inusitada. Sem abandonar o marido em Miami, ela faz corpo a corpo com eleitores à distância, com a ajuda de um boneco de papelão, levado às ruas por cabos eleitorais. “Se meu marido não pode retornar agora, eu posso, com apoio e indicação da família Bolsonaro”, afirma a ex-delegada. Ela aposta no perdão presidencial, caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja eleito, para repatriar o pai de seus filhos em liberdade.
A distância também não impediu que outra bolsonarista raiz pedisse votos — não para si, mas para a mãe. Na Itália, para onde fugiu depois de ser condenada por mandar invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça, Carla Zambelli tem feito valer a força das redes sociais, veículo que a direita domina. Em vídeos com forte apelo emocional, a ex-deputada federal manifesta apoio à mãe, Rita Zambelli (PL-SP), que se movimenta para tentar herdar os votos da caçula, uma das parlamentares mais bem votadas na eleição de 2022. “Vou sair do bastidor para ser a voz dela aqui no Brasil. Encaro uma missão que era da Carla e passou para mim”, afirma a aposentada, sem disfarçar a tentativa de inverter o sentido da herança política. Apesar de não ter experiência nesse campo, ela garante que sempre acompanhou a atuação da filha, ao mudar-se junto com ela para Brasília em 2018.
Há quem seja réu confesso por participação violenta no 8 de Janeiro e, ainda assim, esteja livre para tentar a sorte nas urnas. É o caso do empresário Marcos Soares Moreira, o “Marcos Muralha”, candidato a deputado estadual pelo Novo do Espírito Santo. Ele foi preso e denunciado por integrar as manifestações em Brasília, mas se rendeu às exigências da Procuradoria-Geral da República (PGR) e aceitou um acordo de não persecução penal para encerrar o processo.
Cumpriu toda a cartilha imposta pela PGR: prestou serviços comunitários e assistiu a um curso sobre a democracia. Na campanha, voltou a subir o tom contra o tribunal. Nas redes sociais, tem criticado os ministros da Corte, chamando-os de “tiranos da toga”, e defendido o impeachment de Alexandre de Moraes, inclusive com xingamentos e ataques pessoais. “Fui preso porque eu tenho um posicionamento político”, diz Muralha. Barrada ou não pela Justiça, a turma extremista tenta continuar no jogo. Caberá ao eleitor decidir se ainda haverá espaço para a família do 8 de Janeiro.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014





