Com o crescimento no uso das canetas emagrecedoras, como ficaram conhecidos os análogos de GLP-1, pesquisadores têm a oportunidade de investigar possíveis implicações desses remédios em diversos aspectos do corpo e da saúde. Desta vez, um estudo internacional descobriu que pessoas que utilizavam tais medicamentos apresentavam um risco quatro vezes maior de ter uma consequência inesperada nas unhas.
Trata-se da primeira pesquisa realizada de forma controlada a apurar a relação entre medicações como Ozempic, Wegovy e Mounjaro e o estado das unhas. Os achados foram apresentados no congresso da Academia Europeia de Dermatologia.
Os médicos, capitaneados por um centro francês, recrutaram pacientes da França, dos Estados Unidos, do México e do Brasil. Eles avaliaram 575 indivíduos que usavam as canetas de GLP-1 e os compararam a 1 329 pessoas com diabetes tipo 2 ou obesidade que nunca haviam tomado esses remédios.
Dessa forma, constatou-se que quase 40% dos usuários das medicações apresentaram descolamento da unha – no grupo que não recorreu aos fármacos o índice de pessoas com o problema não chegou a 10%.
De modo geral, 66% dos participantes que aplicaram canetas relataram alguma repercussão nas unhas, diante de 53% do grupo controle. Fora o descolamento, em que a unha se separa da base da pele, 46% dos usuários de GLP-1 disseram ter notado descoloração da unha, frente 17% dos não usuários.
Efeito colateral?
As conclusões, segundo os autores da análise, são consistentes, mas ainda não permitem cravar que se trata de uma reação adversa das canetas de semaglutida e tirzepatida.
Um dos desafios é separar o impacto do tratamento em si do estado de saúde dos pacientes com diabetes tipo 2 e/ou obesidade. Eles já tendem a sofrer de desequilíbrios metabólicos e nutricionais que podem afetar a saúde das unhas.
No estudo, os especialistas tentaram considerar essa variável e levantam a hipótese de que a perda de peso, sozinha, não explicaria totalmente situações como o descolamento. No entanto, ressaltam que, antes mesmo de utilizar as canetas, quase metade dos pacientes já relatava algum problema nas unhas.
Em outra subanálise, que considerou as doenças de pele prévias e deficiências nutricionais, a descoloração e o descolamento das unhas permaneceram até três vezes mais comuns entre usuários de GLP-1.
Além dos impactos na ponta dos dedos, os autores do trabalho também notaram repercussões como queda de cabelo e redução do volume capilar entre pessoas que tomavam as medicações, algo já demonstrado por outros estudos.
As descobertas reforçam a necessidade de monitorar a saúde da pele e das unhas durante o tratamento, sem perder de vista que a obesidade e o diabetes em si já podem afetar essas áreas do corpo. O próximo passo da ciência é estabelecer (ou não) a participação direta das canetas nessa história – e como mitigar tal efeito.





