O ritmo de importação de fertilizantes pelo Brasil está abaixo do observado no mesmo período do ano passado, enquanto a demanda tende a ganhar força nos próximos meses com a preparação das próximas lavouras. Para especialistas do mercado, o descompasso exige atenção dos produtores, principalmente porque uma concentração das compras em um período curto pode pressionar preços e dificultar a entrega de determinados produtos.
Entre janeiro e julho, as importações brasileiras recuaram 32% para a ureia, 24% para o MAP e 43% para o nitrato de amônio na comparação com os sete primeiros meses de 2025. Ao mesmo tempo, o país ampliou a diversificação de fornecedores internacionais, reduzindo a dependência de determinados mercados, mas sem que isso tenha sido suficiente para elevar o volume importado ao nível esperado para esta época do ano.
Para Marcelo Soto, head de Operações e Inteligência de Suprimentos da SCA Brasil Aliança, o principal risco está na possibilidade de os compradores postergarem as decisões e entrarem no mercado simultaneamente. “Quando um grande número de compradores entra ao mesmo tempo em busca dos mesmos produtos, a oferta se torna mais restrita, os fornecedores ampliam suas margens e cresce o risco de atrasos nas entregas”, afirma.
O problema pode se tornar mais evidente nas culturas de soja e milho, que concentram uma parcela relevante do consumo de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos. Se a demanda avançar de forma concentrada, o impacto não necessariamente ficará restrito às cotações. A disponibilidade física também pode se tornar um problema, especialmente em períodos de maior movimentação de cargas.
Marcelo Soto, head de Operações e Inteligência de Suprimentos da SCA Brasil Aliança: “Entregas imediatas de nitrato podem ser um problema, e isso traz bastante insegurança para o mercado, se todo mundo decidir comprar ao mesmo tempo” – Foto: Divulgação
Entre os produtos acompanhados pelo mercado, o nitrato de amônio apresenta uma situação que merece atenção adicional diante da queda de 43% nas importações acumuladas até julho. “Entregas imediatas de nitrato podem ser um problema, e isso traz bastante insegurança para o mercado, se todo mundo decidir comprar ao mesmo tempo”, diz Soto.
Segundo ele, a possibilidade de concentração das aquisições aumenta a importância do planejamento. A antecipação permite ao produtor reduzir a exposição a eventuais limitações de oferta, atrasos logísticos e mudanças nas condições comerciais.
O cenário também é influenciado pelo comportamento dos preços internacionais. Renata Cardarelli, especialista em Precificação de Agricultura e Fertilizantes da Argus Media, afirma que parte dos riscos geopolíticos já foi incorporada às cotações, mas os nitrogenados continuam particularmente suscetíveis a mudanças no ambiente externo. “A ureia é um dos produtos mais voláteis do mercado. Em momentos de maior tensão internacional, os preços podem subir rapidamente, assim como recuar em curto espaço de tempo. Ainda assim, o cenário atual aponta para uma tendência de preços firmes”, aponta.
Os conflitos no Oriente Médio e a guerra entre Rússia e Ucrânia permanecem entre os fatores acompanhados pelos agentes do mercado, mas não são os únicos. A formação das cotações internacionais também depende de decisões de grandes produtores e consumidores.
Entre os pontos de atenção estão os leilões de compra realizados pela Índia, as políticas de exportação da China, especialmente para nitrogenados e fosfatados, e eventuais reduções de oferta por grandes produtores mundiais.
A movimentação no Oriente Médio acrescenta outro componente de risco. O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas para o comércio internacional de petróleo e gás e qualquer restrição ao fluxo de navios na região pode repercutir sobre fretes, custos de transporte e disponibilidade de insumos para países importadores.
Para o mercado brasileiro, o momento é particularmente relevante porque as compras para a safrinha de milho começam a ganhar espaço. “Estamos em um momento que o mercado brasileiro intensifica as compras para safrinha de milho e isso chama a atenção dos players de mercado”, avalia Renata.
Uma eventual interrupção ou redução do fluxo de cargas em rotas estratégicas pode elevar os custos de transporte e alterar a disponibilidade de produtos, criando efeitos indiretos sobre o mercado brasileiro mesmo quando não há uma mudança imediata nos fundamentos domésticos.
Renata Cardarelli, especialista em Precificação de Agricultura e Fertilizantes da Argus Media: “A ureia é um dos produtos mais voláteis do mercado. Em momentos de maior tensão internacional, os preços podem subir rapidamente, assim como recuar em curto espaço de tempo”
Diante desse quadro, a recomendação aos produtores é evitar que a decisão de compra seja baseada exclusivamente na expectativa de que os preços irão cair. A análise precisa considerar a relação de troca, a disponibilidade física, o prazo necessário para entrega e o momento de maior demanda logística.
Para Soto, o planejamento deve incluir também uma avaliação do mercado fornecedor e das condições necessárias para garantir que o fertilizante esteja disponível fora dos períodos de maior pressão sobre portos, transporte e unidades misturadoras. “O melhor momento para comprar fertilizantes não depende apenas da cotação do dia, mas da combinação entre planejamento, disponibilidade do produto e gestão de riscos”, afirma.
A queda nas importações acumuladas até julho, portanto, não significa necessariamente falta imediata de fertilizantes no mercado brasileiro. O ponto de atenção está na combinação entre estoques, ritmo de novas compras e concentração da demanda nos próximos meses. Quanto mais compradores deixarem as aquisições para a mesma janela, maior tende a ser a pressão sobre toda a cadeia de abastecimento.




