Quando vai a escolas dar palestras, o pediatra e psicanalista Paulo Schiller costuma ser confrontado com a clássica pergunta: “Mas tudo é culpa dos pais?” Numa dessas ocasiões, ele abriu os braços, ergueu os ombros e sorriu em silêncio. A plateia gargalhou. Quem cala consente e, segundo o médico, o humor favorece a “emergência da verdade”.
Pois quem quiser ter uma resposta mais completa e efusiva a essa pergunta – e não só a ela – deveria ler A Paixão pela Mentira, o livro de Schiller publicado pela Editora Todavia que eviscera a gênese familiar de alguns dos transtornos sociais mais cruéis e ruidosos de nossa civilização – entre eles a tirania de chefes de Estado, líderes religiosos, diretores de empresa e patriarcas em seus não tão doces lares.
“A paixão de uma parcela expressiva das pessoas pela mentira, pela vulgaridade, pela violência, tem sua origem num conjunto de situações que determinam a estrutura do psiquismo desde os primeiros instantes de vida. A paixão pela mentira existe, em graus diversos para cada um de nós, a partir de circunstâncias conhecidas de todos porém encobertas por séculos de distorções. Ela depende de vários fatores: de que os pais não fazem o melhor pelos filhos, de que o amor deles não é incondicional, de que a valorização dos gêneros não é igualitária, de que as perversões existem em todas as linhagens familiares…”
Eis o diagnóstico nu e cru, sem medo de desagradar, do autor.
A Paixão pela Mentira é uma obra que expõe os mitos que criamos e alimentamos desde cedo, a fábula doméstica herdada de nossos pais, avós… tataravós. Estamos fadados a reescrever histórias e experiências de vida com a tinta da criação, dos afetos, dos abusos e/ou dos traumas, segundo Schiller. Manchas, portanto, são inevitáveis nesse quadro – por mais inconscientes e invisíveis que elas sejam.
É dentro de casa que também se começa a chocar o ovo da tirania, da personalidade que, à frente de uma comunidade ou Estado, elevará o ego à máxima potência, pisando sobre as costas do outro, dos outros. “Se a conjuntura histórica não for favorável à emergência de um governo autoritário, os candidatos a tiranos seguirão seus laços perversos em outros campos, como o religioso, no trabalho, nas relações pessoais e nos vínculos familiares”, anota o autor.
Numa obra que não obedece a um esqueleto tradicional – talvez emulando o vai e vem das sessões no divã -, Schiller, que também é tradutor (verteu do húngaro para o português dois prêmios Nobel, inclusive o atual), mescla décadas de análise com erudição para examinar as mentiras fundadoras do berço esplêndido e da pátria amada, num percurso que retrocede mais de 2 000 anos e nos coloca frente a frente com Antígona – a personificação suprema de uma crise instaurada no seio da família e do Estado.
A paixão pela mentira
Dos gregos até o século XXI, encontramos Shakespeare, deparamos com o estudo monumental de Adorno sobre a personalidade autoritária e, na ansiedade por diagnósticos e soluções, chegamos aos consultórios médicos que viraram máquinas de laudos de transtornos psiquiátricos e emissão de receitas de medicamentos psicotrópicos.
A saída, para Schiller, definitivamente não está em rótulos e pílulas. Está em escavar o passado (inclusive o das gerações que nos antecedem) e desconstruir, de história em história pessoal, a paixão pela mentira que engolimos e passamos adiante – e que sustenta tragédias e regimes tirânicos. Um caminho que passa, na teoria e na prática, pela psicanálise.
Com a palavra, Paulo Schiller.
Afinal, família é tudo igual? Para o bem ou para o mal? Cada história familiar é única, e suas particularidades são infinitas. Por outro lado, todas compartilham certas estruturas fundamentais. As histórias tendem a se repetir a cada geração. Cada um de nós tem o que eu chamo de “missão” de reeditar o que nos fez mal: à primeira vista, o que parece um paradoxo obedece a certo compromisso que temos de proteger as gerações anteriores demonstrando que “não há como se agir de outro modo”. Todas as histórias têm segredos e não ditos, e o desejo de desvendar esses mistérios também determina as nossas escolhas e atos.
Entre os mitos fundadores da ideia de família – e as mentiras que herdamos e propagamos -, qual seria aquela que menos resiste a uma análise crítica? A mentira que menos resiste a uma análise crítica é a ideia de que a nossa história familiar não abriga manchas, transgressões ou desvios morais. As histórias familiares contêm desde pequenas contravenções, como mentiras inocentes, até crimes maiores como abusos ou homicídios. Os psicopatas também nascem no seio de uma família, independentemente da condição econômica ou social. Nossas famílias raramente são ilhas de santidade rodeadas de gente perversa por todos os lados.
Podemos dizer que todo tirano (ou aspirante a tirano), a despeito de estar na cúpula do Estado ou na diretoria de uma empresa, é (de)formado pelo contexto familiar? Sim, certamente. O compromisso de cumplicidade, de solidariedade com as gerações anteriores, repletas de transgressões ou mesmo de crimes graves, vem antes, tem muito mais força do que as supostas obrigações éticas de um chefe de estado ou diretor de empresa.
A investigação sobre a família do paciente numa sessão de psicanálise, inclusive das gerações anteriores, é indissociável do processo de elucidação da história individual e da possível remissão de traumas, neuroses e afins? Ao contrário do que muitos pensam, a psicanálise não é um percurso de autoconhecimento. A psicanálise propõe mudança, transformação. Trata de estilos, atitudes, atos, modos de fazer determinadas coisas que desejamos modificar, pois nos fazem mal, nos prejudicam. Esse caminho deverá, sim, passar, inevitavelmente, por uma reconstrução, uma reinterpretação das nossas histórias individuais desde a infância e pela histórias das duas linhagens familiares que nos deram origem.
O senhor traz críticas contundentes aos diagnósticos biológicos e ao excesso de medicalização na psiquiatria. Qual a maior falha dessa abordagem hoje? Um exemplo, entre muitos: uma criança ou um adolescente que tem uma dificuldade nos estudos ou que apresenta um comportamento incômodo para seus pais ou professores. Ela será avaliada por meio de testes de aparência sofisticada, deverá ganhar um diagnóstico de TDAH e vai ser medicada com uma droga cheia de efeitos colaterais. Isso tudo vai acontecer sem que nenhum profissional pergunte o que está acontecendo em casa.
Essa espécie de raciocínio se aplica a quase todos os diagnósticos em psiquiatria. Supõe-se que os assim ditos transtornos são análogos a doenças como um diabetes ou um hipotiroidismo. Cabe restabelecer um suposto equilíbrio bioquímico perdido. Os diagnósticos e os trabalhos de pesquisa que os avaliam e que determinam os medicamentos a serem utilizados são precários. Ninguém tem de pensar sobre si. Confunde-se cérebro com psiquismo.




