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    Home»Destaque»O Brasil vai colher 360 milhões de toneladas. Onde vai guardar tudo isso?
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    O Brasil vai colher 360 milhões de toneladas. Onde vai guardar tudo isso?

    BarthimanBarthimanagosto 25, 2026
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    A produção brasileira de grãos cresce em ritmo superior ao avanço da infraestrutura de armazenagem. Para a safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma colheita de 360,1 milhões de toneladas, enquanto o país dispõe de 228 milhões de toneladas de capacidade estática cadastrada no portal Armazéns do Brasil. A diferença, por si só, não significa que todo o excedente ficará sem destino, mas evidencia um problema que se concentra principalmente onde a produção avança mais rapidamente que a construção de estruturas para receber os grãos.

    A distribuição regional dos armazéns é hoje um dos principais gargalos. De acordo com a técnica da Conab e vice-presidente da Associação Brasileira de Pós-Colheita (Abrapos), Denise Deckers, há regiões produtoras em que a falta de estruturas obriga agricultores a buscar alternativas inadequadas para conservar a produção. “Não é incomum ver o produto depositado a céu aberto porque não há um local adequado para o armazenamento. É uma carência muito expressiva de unidades armazenadoras em regiões específicas do Brasil”, enfatiza.

    Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, e o oeste da Bahia estão entre as áreas apontadas pela especialista como críticas. Nesses locais, o problema não é apenas a quantidade total de armazéns existentes no país, mas a distância entre onde o grão é produzido e onde há estrutura disponível para recebê-lo.

    Mais produção, armazenagem no mesmo ritmo

    O descompasso entre produção e capacidade estática não é recente. De acordo com Denise, as curvas começaram a se distanciar de forma mais evidente a partir da década de 1990. A produtividade agrícola avançou com melhoramento genético, novas tecnologias e manejo, mas os investimentos em estruturas de pós-colheita não acompanharam a mesma velocidade. “Temos capacidade de aumentar a produção das lavouras em função dos melhoramentos genéticos e capacitação no manejo, mas ainda somos muito resistentes em investir na construção de armazéns”, diz.

    A diferença entre os números de produção e capacidade estática também precisa ser analisada considerando a dinâmica das safras brasileiras. Ao contrário de países como Estados Unidos e Argentina, o Brasil consegue produzir diferentes culturas em períodos distintos do ano. Em algumas regiões, é possível colher até três safras de determinadas culturas, como milho e feijão.

    Essa característica permite que os armazéns sejam utilizados sucessivamente ao longo do ano, reduzindo a necessidade de que a capacidade estática seja equivalente ao volume anual total produzido.

    “O Brasil tem capacidade estática para abrigar tudo o que produz, porque diferentemente dos Estados Unidos e da Argentina, temos mais de uma safra por ano em momentos distintos e, desta forma, temos condição de abrigar uma safra, expedi-la e receber a seguinte”, explica.

    O problema aparece quando a infraestrutura não está disponível no momento e no local em que a produção chega. Nesse caso, o produtor pode perder poder de negociação, enfrentar custos maiores de transporte e ficar mais exposto à deterioração da qualidade dos grãos.

    A expansão da armazenagem nas propriedades rurais é uma das alternativas defendidas pela especialista. Para isso, porém, seria necessário ampliar o acesso a linhas de financiamento destinadas também a cerealistas e produtores interessados em construir estruturas próprias.

    Denise defende mecanismos semelhantes aos existentes no crédito rural, hoje direcionados principalmente a cooperativas e produtores associados. A ampliação desse tipo de investimento teria efeitos que vão além da capacidade física de guardar a produção.

    Com o grão armazenado na própria propriedade, o produtor ganha maior liberdade para escolher o momento da venda, pode reduzir deslocamentos durante períodos de pico e diminuir a pressão sobre o frete. “Esse investimento por parte do governo também iria estimular os agricultores a construir armazéns próprios em suas propriedades, e ter unidades armazenadoras na zona rural traz inúmeros benefícios, como melhores preços na comercialização, redução de custos com fretes, e geração de empregos, fazendo o setor do agronegócio girar no município”, afirma.

    A questão, portanto, não se resume a saber se o país tem ou não armazéns suficientes para a produção anual. O desafio está em garantir que a estrutura esteja disponível no lugar certo e no momento em que a safra precisa ser retirada do campo.

    Com a produção projetada em 360,1 milhões de toneladas e novas áreas incorporadas ao sistema produtivo, a pressão tende a permanecer concentrada nos polos em que a expansão agrícola ocorre mais rapidamente. Sem novos investimentos, o aumento da produtividade pode continuar ampliando uma distância que já dura décadas entre a capacidade de produzir e a capacidade de armazenar.

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