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    Home»Destaque»‘Eu odeio a escola’: toda criança precisa de uma ‘pedra da sabedoria’
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    ‘Eu odeio a escola’: toda criança precisa de uma ‘pedra da sabedoria’

    BarthimanBarthimanmarço 24, 2026
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    “Eu odeio a escola.” Quando uma criança diz isso, quase nunca está rejeitando o conhecimento. Na maioria das vezes, ela apenas ainda não encontrou um lugar seguro para aprender.

    Costumamos tratar a alfabetização como um processo técnico: juntar letras, formar sílabas, decifrar palavras. Mas aprender a ler começa muito antes disso. Antes de aprender o alfabeto, a criança precisa reconhecer algo ainda mais fundamental: que o mundo é um lugar onde ela pode tentar, errar e tentar novamente.

    A neurociência tem demonstrado que o aprendizado depende profundamente desse sentimento de segurança. Quando o cérebro infantil está sob estresse constante, entra em modo de sobrevivência, dificultando a memorização, comprometendo a atenção e atrapalhando a formação de novas conexões neurais.

    Em educação, costumamos falar muito de método, currículo e avaliação. Mas existe um ingrediente silencioso sem o qual nada disso funciona: o afeto.

    Percebi isso de forma muito concreta durante a pandemia de covid. Com as escolas fechadas e o mundo mergulhado em incertezas, muitas famílias tiveram de reinventar a rotina de aprendizagem dentro de casa.

    Foi nesse contexto que comecei a alfabetizar minha filha, Lorena, em um lugar improvável: uma pedra próxima de casa, que passamos a chamar carinhosamente de “pedra da sabedoria”.

    Sentados naquela pedra, longe da pressão das tarefas e da comparação com os colegas, resolvemos fazer algo simples: brincar com as letras. Aquela pedra comum começou a se transformar em algo diferente. Ali, aprender voltou a ser possível.

    O A virou um avião. O B parecia uma barriga cheia de histórias. O C se transformou em uma canoa que atravessava um lago imaginário. Assim, as letras deixaram de ser obstáculos e passaram a ser personagens de uma brincadeira. E, quase sem perceber, a alfabetização começou a acontecer.

    Talvez toda criança precise de um lugar assim. Um pequeno território onde o erro não é vergonha, mas caminho. Um espaço onde a curiosidade pode respirar e o aprendizado volta a ser descoberta.

    Essa experiência inspirou o livro infantil A Pedra da Sabedoria, que escrevi ao lado de Filipe Macedo. A história nasce de uma percepção simples: aprender não depende apenas de métodos pedagógicos, mas também do clima emocional que envolve a criança.

    Isso não diminui o papel da escola ou dos professores, pelo contrário. Educadores exercem uma função essencial na formação intelectual das crianças, mas a aprendizagem se torna mais potente quando ultrapassa os muros da escola e encontra eco dentro de casa.

    Pais e mães não precisam dominar teorias pedagógicas para participar da alfabetização dos filhos. Muitas vezes, o que a criança precisa é de presença, escuta e encorajamento familiar para se desenvolver.

    Talvez cada criança precise encontrar sua própria “pedra da sabedoria”, um lugar simples onde alguém se senta ao seu lado e transforma o aprendizado em descoberta.

    Pode ser uma pedra, uma mesa de cozinha ou o colo de quem tem paciência para ensinar. O lugar pouco importa. O que transforma um espaço comum em território de aprendizagem é o afeto que existe nele.

    Por isso, quando uma criança diz que odeia a escola, talvez ela esteja apenas dizendo que ainda não encontrou sua pedra da sabedoria. Afinal, toda criança aprende melhor quando alguém se senta ao seu lado.

    * Donaldo Buchweitz é formado em teologia e filosofia, autor de mais de 100 livros e editor de um catálogo que ultrapassa 4 000 títulos, atua como CEO da Grupo Ciranda Cultural

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