Notícia-crime foi apresentada contra o coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secom; segundo o documento, o funcionário teria pedido, nas redes sociais, que usuários parassem de compartilhar as retratações sobre a desinformação.
A campanha do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu nesta sexta-feira (25) a prisão preventiva e a expedição de um mandado de busca e apreensão contra um servidor do Palácio do Planalto, acusado de disseminar desinformação sobre o caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
A notícia-crime foi apresentada contra George Marques, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
Segundo a campanha, Marques teria compartilhado nas redes sociais uma publicação que orientava os usuários a ignorar a retratação da imprensa sobre a informação falsa. A postagem dizia: “parem de divulgar a retratação. Deixem o assunto rolar. […] Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada, precisa chegar no interior do Nordeste, no interior do Norte”.
A campanha afirma que o servidor tinha conhecimento de que a informação era falsa e de que havia sido desmentida publicamente. Segundo a petição, ele teria compartilhado o conteúdo com seus mais de 200 mil seguidores.
A petição também cita outras publicações republicadas por Marques, nas quais usuários acusam Flávio Bolsonaro de tentar enfraquecer as igrejas católicas no Brasil.
Para a campanha, o conteúdo compartilhado pelo servidor indicaria uma atuação coordenada para manter a informação falsa em circulação até o primeiro turno das eleições. “Não se trata de opinião. Trata-se de um plano”, afirma a notícia-crime.
Para os advogados, a conduta configura os crimes de divulgação de fatos sabidamente inverídicos em período eleitoral, além de incitação ao crime e associação criminosa.
Por isso, a campanha pede a abertura de investigação para apurar a conduta de Marques e de outros envolvidos, além de mandado de busca e apreensão para recolher computador, celular e outros dispositivos eletrônicos do servidor.
Pede ainda a decretação da prisão preventiva do servidor e afirma que, se não atendida, que seja ao menos determinada a suspensão do exercício da função pública e a proibição de uso das redes sociais.
Outro lado
Em nota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que as alegações de Flávio ‘não procedem’. Disse ainda causar estranheza um ‘pedido injusto e arbitrário’ de prisão de um cidadão brasileiro.
A Secom afirma que, ao atribuir ao Governo Federal a responsabilidade por uma republicação realizada por George, Flávio estaria distorcendo os fatos e ignorando que a manifestação ocorreu em caráter estritamente pessoal, por meio de perfil particular, fora do horário de expediente e com a utilização de equipamento próprio.
‘O Governo Federal reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e de religião de todos os brasileiros e manifesta repúdio e profunda preocupação com o patrulhamento e a censura impostos à população nesse episódio, a pedido do candidato Flávio Bolsonaro’, diz.
Entenda
O episódio começou na noite de 23 de setembro, quando passou a circular nas redes sociais a afirmação de que Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Os conteúdos publicados nas redes sociais utilizaram falas de Flávio Bolsonaro feitas em agosto, em que afirmou que ‘quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo’. A declaração foi feita em um vídeo em que o presidenciável explicava a ausência no primeiro debate presidencial realizado pela TV Band.
A informação foi desmentida pelo candidato em suas redes sociais nesta quinta-feira (24). Na publicação, o senador garantiu não haver nenhuma possibilidade de existir alguma proposta do tipo. A autoria das postagens foi atribuída pelo senador à ‘milícia do PT’ (CNN, 26/9/26)
Funcionário do Planalto repostou ao menos 10 notas propagando fake news
George Marques, da Secretaria de Comunicação de Lula, republicou boatos dizendo que Flávio Bolsonaro pretende retirar título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida; campanha do PL pediu prisão de funcionário Questionado pelo Poder360, George Marques (foto) disse manter um perfil pessoal voltado a ‘política e humor’ Reprodução/LinkedIn
George Marques da Silva e Silva, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República, repostou ao menos 10 mensagens com fake news que atribuíam ao senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Os atos se deram na 6ª feira (25.set.2026).
A conduta motivou a campanha do candidato à Presidência da República a protocolar, no MPE (Ministério Público Eleitoral) em Brasília, uma notícia-crime pedindo a decretação de prisão preventiva do funcionário do Planalto.
2.086 publicações identificadas;
1.674 contas envolvidas na disseminação;
Mais de 21 milhões de visualizações;
Redes afetadas: X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube.
A defesa de Flávio anexou ao processo uma ata notarial digital que registra 4 republicações feitas pelo coordenador no mesmo dia, incluindo mensagens sobre perseguição à Igreja Católica. O Poder360 identificou 10 postagens que propagavam a desinformação.
O QUE DIZ A NOTÍCIA-CRIME
A defesa de Flávio imputa 3 crimes a George Marques: divulgação de fatos sabidamente inverídicos na eleição (art. 323 do Código Eleitoral); incitação ao crime (art. 286 do Código Penal); associação criminosa (art. 288 do Código Penal).
Se condenado pelos 3 crimes, as penas podem ser somadas. O crime de associação criminosa contempla reclusão de 1 a 3 anos. Os outros 2 têm penas de detenção inferiores a 1 ano, além de alternativas de multa.
ORIGEM DA DESINFORMAÇÃO
A narrativa circulou nas redes sociais e foi veiculada no programa “GloboNews Em Pauta”, segundo a notícia-crime. A história resgatava o Projeto de Lei nº 2.623 de 2007, de autoria do ex-deputado Professor Victório Galli (PMDB-MT). Galli foi assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de fevereiro a junho de 2019.
A proposta pretendia restringir a referência à padroeira aos católicos apostólicos romanos. Foi rejeitada e arquivada pela Câmara dos Deputados em agosto de 2008 —anos antes de Flávio ingressar no Congresso Nacional.
A emissora corrigiu a informação e pediu desculpas na madrugada desta 6ª feira (25.set).
TSE E MENDONÇA
O ministro André Mendonça, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), classificou a narrativa como “notoriamente inverídica” e determinou a remoção imediata do conteúdo das plataformas digitais. Marques, então, passou a republicar críticas ao ministro da Suprema Corte.
VERSÃO DE MARQUES E NOTA DA SECOM
Questionado pelo Poder360, George Marques disse manter um perfil pessoal voltado a “política e humor”. Segundo ele: não se recorda de ter republicado o conteúdo; caso tenha ocorrido, foi um “erro involuntário” ao compartilhar postagens em sequência;
Já a Secom informou, em nota oficial, que a manifestação não espelha o posicionamento institucional, por ter sido feita em um perfil pessoal. A Secretaria, porém, classificou como “inadequado” o uso de contas pessoais por integrantes, de forma que cause confusão com manifestações institucionais.
VERSÃO DE FLÁVIO
Em vídeo divulgado em seu perfil no X, Flávio Bolsonaro negou qualquer proposta contra a padroeira, disse respeitar todas as manifestações religiosas e afirmou que a história foi criada pelo PT como tática de campanha. A notícia-crime segue para análise do MPE, em Brasília.
QUEM É GEORGE MARQUES
George Marques da Silva e Silva é jornalista e analista político. Atua na Secom da Presidência da República, onde ocupa desde setembro de 2025 o cargo de coordenador geral de Estratégia e Informação. Começou a trabalhar no Planalto em janeiro de 2023, quando Lula iniciou o 3º mandato.
Ao longo de sua passagem pela administração pública federal, assumiu posições estratégicas na gestão da comunicação governamental. Marques tem um perfil ativo no X. Faz críticas a opositores do presidente Lula, como Flávio Bolsonaro, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano) (Poder360, 26/9/26)
‘Dilma Bolada’ começou com fake sobre N. S. Aparecida, indica monitoramento da campanha de Flávio
Jéferson Monteiro e Dilma. Roberto Stuckert Filho-PR
Publicitário por trás de perfil governista fez publicação, na noite do dia 23, associando família Bolsonaro a plano de retirar título de padroeira do Brasil de santa católica. Reportagem não localizou Jeferson Monteiro; em rede social, ele reafirmou o teor da publicação e acrescentou: ‘quero que alguém me aponte onde está a informação falsa nesta mensagem’.
A informação falsa de que o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil nasceu a partir de uma declaração feita nas redes sociais pelo influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, autor do perfil governista “Dilma Bolada”.
É o que indica o monitoramento de redes sociais realizado pela campanha de Flávio Bolsonaro, apresentado à Justiça Eleitoral. Segundo o levantamento da equipe, a publicação de Jeferson, feita às 21h50 de quarta-feira, 23, levou a uma onda de boatos e distorções a partir dos minutos seguintes.
“Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil. Tudo com Jesus. Nada sem Maria. E Bolsonaro na cadeia!”, diz a publicação no perfil de Jeferson.
Jeferson Monteiro manteve, durante campanha à reeleição de Dilma, relação com a então presidenteFoto: @Dilma Bolada via Facebook
Na tarde deste sábado, 26, o post seguia disponível na rede social X (antigo Twitter). A reportagem não conseguiu contato com o autor. Depois da publicação deste texto, Jeferson reafirmou, em comentário no Instagram, o teor da sua postagem. “Quero que alguém me aponte onde está a informação falsa nesta mensagem. Jurista ou linguista”, escreveu.
A segunda publicação identificada pela equipe de Flávio surgiu seis minutos depois. O usuário @waglegal10 escreveu: “se for eleito, o senador Flávio terá que lidar com uma forte cobrança de uma ala de seus apoiadores. Representantes de grupos evangélicos prometem fazer pressão para retirar de Nossa Senhora Aparecida o posto oficial de padroeira do Brasil”.
Publicação do influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, autor da perfil governista ‘Dilma Bolada’, foi feita às 21h50 de quarta-feira, 23Foto: @jeferson via X
A informação falsa escalou por volta das 20h13 do dia seguinte, quando o canal GloboNews levou ao ar um comentário de jornalista dando conta de que haveria um grupo evangélico se mobilizando contra o título da padroeira.
Horas depois, o canal fez um comunicado dizendo que errou e pediu desculpas. Além disso, a campanha de Flávio obteve decisão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tirar do ar mais de 1 mil publicações que propagavam a informação falsa.
Influenciadores governistas, porém, seguiram reforçando a desinformação com o objetivo de desgastar Flávio Bolsonaro junto ao eleitorado católico.
Coordenador da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, George Marques republicou um post que estimulava a continuidade da disseminação da informação falsa.
“Parem de divulgar retratação. Deixem o assunto rolar. Eles fizeram isso em outras eleições e quase nos ferram. Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada, precisa chegar no interior do Nordeste, no interior do Norte”, dizia a publicação, que depois foi apagada. A campanha de Flávio pediu a prisão dele.
Embora o erro da GloboNews não tenha citado o nome do candidato, um dos posts indicados pela campanha de Flávio como tendo a maior visibilidade atrelava o senador à informação errada do canal.
Com mais de 2 milhões de visualizações em menos de 24 horas, o post do usuário @vitor_dlucca compartilhava parcialmente a informação da GloboNews e dizia ser um “absurdo o que estes bolsonaristas estão tentando fazer”.
Catorze minutos depois, o usuário @CarlosPortoRJ escreveu: “Eu custei a acreditar que Flávio Bolsonaro vai tirar Nossa senhora aparecida como padroeira do Brasil. Mas acabou de sair na GloboNews essa notícia. Isso é algo tão grave e sem precedentes. É o maior ataque aos católicos do Brasil”. O post teve mais de 2,4 milhões de visualizações.
Em seguida, o assunto foi tracionado por um dos militantes mais ativos da rede governista. O monitoramento da campanha de Flávio Bolsonaro detectou que Lázaro Rosa fez 12 publicações com informações distorcidas, mesmo após os desmentidos.
“Rapaz, que absurdo é esse? Grupo de evangélicos quer, através de um projeto de lei, tirar a Nossa Senhora da Aparecida como padroeira do Brasil. Não duvido desse projeto ser aprovado em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, candidato apoiado por eles”, escreveu.
O projeto de lei em questão está arquivado há quase 20 anos. O texto foi apresentado em dezembro de 2007 pelo então deputado federal mato-grossense Victório Galli, filiado à época ao MDB. Em 2018, ele foi candidato a deputado pelo PSL. Hoje, tenta uma vaga na Câmara concorrendo pelo PP de Mato Grosso.
A proposta pretendia alterar trechos da lei que criou o feriado de Nossa Senhora Aparecida, celebrado em 12 de outubro. Uma das mudanças seria trocar a expressão “padroeira do Brasil” para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
O projeto foi arquivado em agosto de 2008, por recomendação do relator do texto na Comissão de Educação e Cultura, o então deputado Átila Lira. Segundo o parlamentar, a alteração pretendida pelo colega tinha “total falta de amparo constitucional”.
Na tarde do dia 24, o próprio perfil “Dilma Bolada”, criado por Jeferson Monteiro, publicou uma imagem na qual Flávio Bolsonaro era uma serpente que tinha a cabeça pisada por uma santa. A equipe do candidato do PL listou 29 perfis como disseminadoras da informação falsa.
O perfil Dilma Bolada se notabilizou nos idos de 2013 fazendo uma sátira positiva da então presidente Dilma Rousseff (PT). Na campanha de 2014, a página atuou pela reeleição da petista.
Em seu acordo de delação premiada, Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, afirmou que pagou R$ 200 mil a Jeferson Monteiro via caixa 2. Ele negou a informação e Dilma, na época, afirmou que o casal prestou falso testemunho.
No início do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o publicitário ganhou um cargo na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Foi demitido em agosto de 2023, após cinco meses nomeado, depois de fazer uma viagem particular para a Europa sem estar em férias (Estadão, 27/9/26)
Por que polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida entrou na disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula pela Presidência
Nossa Senhora de Aparecida – Imagem ChatGPT
Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Padroeira do Brasil pelo Vaticano em 1930
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), liberou, neste domingo (27/9), uma publicação do ator e humorista Antonio Tebet sobre a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
A decisão de Dino derruba uma determinação do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na sexta-feira (25/9), Mendonça determinou a derrubada de publicações nas redes sociais que associam o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta articulação para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Na decisão, ele pede que as plataformas Meta, X, TikTok e YouTube adotem medidas para impedir a disseminação de publicações. Mendonça também fixou multa de R$ 50 mil por dia, por provedor, em caso de descumprimento.
Na determinação de Dino deste domingo, o ministro considerou que a decisão de Mendonça feria a liberdade de expressão.
O tribunal já havia decidido, em análise preliminar, que não havia ‘suporte fático mínimo’ para a alegação de que Flávio Bolsonaro ou sua família teriam promovido ou articulado uma iniciativa para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
A defesa de Flávio havia argumentado que a remoção individual de URLs não era suficiente diante da velocidade de replicação do conteúdo em diferentes plataformas.
Os advogados do senador apresentaram à Justiça Eleitoral um levantamento que identificou 2.086 publicações, provenientes de 1.674 contas, somando mais de 21 milhões de visualizações, cerca de 1,49 milhão de curtidas e 312 mil compartilhamentos de conteúdos a respeito do tema.
Na noite de quinta-feira (24/9), o candidato do PL veio a público desmentir comentários que circulam nas redes sociais de que, se eleito, pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil por meio de um suposto projeto de lei.
‘Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto’, afirmou Flávio em um vídeo no qual acusa o PT de explorar eleitoralmente o caso.
Já neste domingo, Flávio disse, sem apresentar provas, que ‘gente de dentro’ da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) articulou a disseminação da fake news.
‘A maior fake news da campanha foi essa sobre Nossa Senhora Aparecida, algo que nunca, não existia esse movimento para tirar ela de ser padroeira do Brasil. Jamais existiu. Não tem projeto. Não tem nada. E o PT, eu sei hoje, já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente dentro da CNBB’, afirmou, em uma entrevista coletiva em Goiás.
Em seguida, a CNBB reagiu. Por meio de nota, negou qualquer envolvimento na produção das informações falsas. ‘A mentira não se combate com outra mentira’.
A controvérsia se instalou após um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, feito durante o programa Em Pauta, da GloboNews, e que viralizou nas redes sociais.
Ao analisar aspectos da disputa eleitoral, incluindo o voto feminino e o comportamento do eleitorado religioso, Fernandes afirmou haver ‘um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos’ que estaria ‘mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira’.
No comentário, a jornalista diz que essa reação poderia ter efeito entre eleitores católicos em favor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição e trava uma disputa apertada com Flávio, segundo as pesquisas.
Na fala exibida pela emissora, Fernandes não atribuiu o suposto projeto a Flávio Bolsonaro. Depois da transmissão, porém, o trecho passou a circular acompanhado da afirmação de que o candidato do PL pretendia retirar ou apoiava a retirada do título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida.
Não há, porém, evidências de que o senador tenha apresentado ou apoiado uma proposta com esse objetivo.
Após a repercussão, a GloboNews fez uma retratação na madrugada desta sexta e se desculpou pelo erro.
Também nesta sexta, os advogados do senador apresentaram uma notícia-crime à Procuradoria-Geral Eleitoral, pedindo a abertura de investigação contra 29 pessoas e responsáveis por perfis que, segundo a peça, divulgaram o conteúdo.
Entre os citados estão a deputada estadual Lohanna França (PV-MG), o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara.
A polêmica ocorre em um momento em que bispos e arcebispos da Igreja Católica defenderam publicamente a soberania nacional e o compromisso com a população mais pobre, posicionamentos próximos dos defendidos por Lula. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica reafirmou que não indica candidatos ou partidos.
O vice-presidente e candidato à reeleição na chapa de Lula, Geraldo Alckmin (PSB), gravou um vídeo dizendo ter recebido mensagens de católicos ‘preocupados com os rumos do país’, sem mencionar diretamente a questão de Nossa Senhora Aparecida, mas prometendo que tradições religiosas estarão ‘protegidas e preservadas’ em um eventual novo governo.
Projeto de 2008 foi arquivado
Existe um projeto de lei sobre o assunto, mas ele não é atual e não tem relação com Flávio Bolsonaro.
O PL 2.623 foi apresentado em dezembro de 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli, à época do PMDB de Mato Grosso.
A proposta pretendia alterar a Lei nº 6.802, de 1980, substituindo a referência a Nossa Senhora Aparecida como ‘padroeira do Brasil’ por ‘padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos’.
O projeto foi rejeitado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados em julho de 2008 e definitivamente arquivado em 22 de agosto daquele ano, depois que terminou o prazo para apresentação de recurso. Ou seja, não há atualmente tramitação daquela proposta no Congresso.
A própria Câmara já havia esclarecido, em 2018, quando alegação semelhante circulou nas redes, que o PL estava arquivado desde 2008.
Na madrugada desta sexta-feira (25/9), horas depois do comentário de Maria Cristina Fernandes, a GloboNews esclareceu que o projeto mencionado havia sido apresentado em 2007 e arquivado em 2008.
‘Nós pedimos desculpas pelo erro’, disse a apresentadora Marcelly Setúbal, ao ler o posicionamento da emissora na Edição da Meia-Noite.
Em suas redes sociais, Flávio Bolsonaro compartilhou o momento em que a emissora se retratou e acusou seus adversários de usarem esse episódio para atacá-lo.
‘Respeito todas as religiões e também quem não tem religião!’, disse o senador.
‘O Brasil é do Senhor Jesus Cristo’
Após a fala da jornalista viralizar nas redes sociais, uma declaração de Flávio Bolsonaro feita ainda na pré-campanha voltou a circular.
Na ocasião, o senador disse que, se eleito, declararia o Brasil como pertencente a Jesus Cristo.
‘Se eu for presidente do Brasil, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo’, disse na publicação feita no dia 24 de agosto.
Opositores do senador e alguns membros da Igreja Católica interpretaram a declaração como uma indireta ao fato de Nossa Senhora Aparecida ser a padroeira do Brasil.
O tema religioso tem ganhado espaço na reta final do debate eleitoral, com declarações de bispos e arcebispos da Igreja Católica defendendo a soberania nacional e o compromisso com a população mais pobre.
‘Nós não temos partido. Mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia’, disse o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, em vídeo divulgado nesta semana.
Dom Guilherme Werlang, bispo de Lages (SC), advertiu contra a manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus: ‘As igrejas não são currais eleitorais’, afirmou, no que parece uma referência a relatos de lideranças evangélicas pedindo votos ao bolsonarismo.
O alto clero católico não declarou apoio a nenhum dos candidatos, mas temas como justiça social e, especialmente na campanha de 2026, defesa da soberania, são associados a Lula e ao PT.
Em junho, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reafirmou que não indica candidatos ou partidos, mas pediu respeito à Constituição, às instituições, ao resultado das urnas e à verdade no debate público.
O presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler, também defendeu a formação da consciência dos eleitores.
Católicos e evangélicos divididos pelo voto
A dez dias do primeiro turno da eleição presidencial, em 4 de outubro, a disputa por votos entre Flávio Bolsonaro e Lula está acirrada.
O petista tem 40% de intenção de voto, enquanto o filho de Jair Bolsonaro aparece com 37% no primeiro turno, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil nesta sexta-feira (25/9).
O candidato Augusto Cury (Avante) aparece em terceiro na disputa com uma intenção de voto de 5% nos cálculos do agregador. Na sequência aparecem Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, e Renan Santos (Missão), também com 3%.
O filho de Jair Bolsonaro tem conseguido aumentar seu desempenho nas pesquisas de primeiro turno: dez dias atrás, ele aparecia com 35% e Lula, com 39%.
Nas simulações de segundo turno, quando o cenário mais provável até aqui é de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, o senador aparece à frente com 46%, enquanto o presidente tem 45%.
Quando o tema é religião, pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira mostra que, entre os católicos, 45% pretendem votar em Lula no primeiro turno, contra 33% que dizem preferir Flávio.
No campo evangélico, o bolsonarista tem 47% das intenções de voto, contra 27% do petista.
Por que Nossa Senhora Aparecida é padroeira do Brasil?
O reconhecimento formal de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país veio no século 20. Em 1930, o papa Pio 11 proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil.
Documento do Vaticano publicado 75 anos depois, durante o pontificado de Bento 16, confirma que a proclamação ocorreu por meio de uma bula de Pio 11 e tinha, entre seus objetivos, ampliar a devoção à Imaculada Conceição no país.
A escolha de Aparecida consolidava uma devoção que havia se expandido pelo território brasileiro desde o encontro da imagem no rio Paraíba do Sul, em 1717.
A imagem é uma representação de Nossa Senhora da Conceição e ganhou o nome de ‘Aparecida’ de maneira popular, em referência ao fato de ter sido encontrada nas águas.
A devoção mariana, por sua vez, já estava presente no Brasil desde a colonização portuguesa. A data atualmente associada à santa, porém, só foi definida posteriormente.
Embora a imagem tenha sido encontrada em outubro de 1717, o dia da Padroeira passou a ser celebrado em 12 de outubro a partir de 1953.
Antes disso, a festa chegou a ocorrer em diferentes momentos do calendário, incluindo o primeiro domingo de maio, o quinto domingo da Páscoa, 7 de setembro e 8 de dezembro.
Segundo o historiador Leandro Karnal, ouvido pela BBC News Brasil, a escolha do dia 12 ajudou a criar uma conexão entre referências religiosas e cívicas da história brasileira.
Foi somente em 1980, no entanto, que 12 de outubro se tornou feriado nacional por lei. Sancionada pelo então presidente João Figueiredo em 30 de junho daquele ano, a Lei nº 6.802 declarou a data feriado nacional para ‘culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil’. A legislação continua em vigor.
É justamente essa lei que estava no centro do projeto mencionado na polêmica recente. O PL 2.623/2007 não propunha abolir a referência a Nossa Senhora Aparecida, mas alterar a redação da Lei nº 6.802 para substituir a expressão ‘Padroeira do Brasil’ por ‘Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos’ (BBC News Brasil, 28/9/26)
Reprodução JP News




